22/07/2008 16:14
Cultura
Pajé-Curandeiro Kisibi Sumu

por Sinvaline, da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge

Marcelo Scaranari

A Aldeia da Lua é um dos pontos mais atrativos do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros. Etnias indígenas como Krahô, Avá Canoeiro, Kamayurá, Guarany-Mbya, Fulni-ô, Apinajé, Dessana se misturam numa grande festa onde todos apresentam sua maneira tradicional de viver como: danças, comidas típicas, vestimentas e outras particularidades.

Dentre essa mistura chama a atenção o Pajé Curandeiro Tradicional , Kisibi Sumu, ou Raimundo Veloso Vaz da Comunidade de São João do Tupé; à 25 quilômetros de Manaus, onde ele é o líder espiritual da comunidade de 35 pessoas que habitam duas malocas (ou ocas) com 6 casas.

Como líder ele ensina à sua gente a ter respeito com as pessoas e principalmente conservar sua cultura. A família para ele é sagrada. Todos se ajudam e se respeitam e as crianças merecem uma atenção especial. A esposa do Pajé, Yupahkó (ser humano da noite símbolo da lua) muito séria, diz:

- Criança não pode espancar, bater nos filho estraga a cabeça, o miolo vira e perde a inteligência , para educar é só com conversa ou então diz que vai deixar sem comer, aí eles obedecem. Outras vezes promete levar no passeio no rio ou outro lugar.

Kisibi Kumu, segundo ele, quer dizer "símbolo do sol - curandeiro". Seu Raimundo trabalha com plantas medicinais e rezas tradicionais que é uma herança de seus antepassados do Alto Rio Negro no município de São Gabriel, já na fronteira com a Colômbia e Venezuela. Sobre o uso das plantas nativas da Amazônia ele diz com muita segurança:

- No reserva florestal onde moro há muita planta medicinal, tenho prática e cuidado para não estragar a mata. Isso ser muito importante porque precisamos das plantas sempre.

A planta mais usada por ele é a sacarura mira, que serve para asma, inflamações do útero, reumatismo, dor de cabeça, febre, câncer e aids. Porém afirma que além das plantas precisa também haver a pajelança, a reza tradicional. Pode citar e comprovar inúmeros casos de cura dessas doenças.

A cura da AIDS ele descobriu há pouco tempo. Foi quanto esteve num encontro de Pajés Curandeiros no Rio de Janeiro e já no final do atendimento uma senhora lhe pedia, por favor, que falasse com ela e insistia:

- Seu Pajé, por favor o sr sabe remédio para AIDS?

- Não, nunca fiz remédio para AIDS, só para câncer e outras doenças.

A mulher insistiu:

- Por favor Pajé, minha filha está morrendo, já está muito magra e caiu quase todo o cabelo!

Ele respondeu:

- Minha senhora infelizmente não posso fazer nada, não vou mentir, não sei remédio para essa doença.

Diante da insistência da senhora, o Pajé lhe passou uma garrafada, fez a prece tradicional e lhe deu a seguinte instrução:

- Pare com todos os remédios que ela tiver tomando, dê só a garrafada e eu vou continuar fazendo a reza por ela.

A sra lhe perguntou:

- Como faço para saber o resultado?

Sorrindo ele conta:

- Esse galho é fraco: a senhora joga fora os remédio da farmácia e toma o caseiro. Toma as garrafada e leva no médico só para examinar.

Daí a três meses seu telefone toca:

- Seu Pajé tenho uma notícia para o senhor!

Ele responde:

- Se for boa conta, se for ruim, desligo!

Chorando a mulher fala:

- Fica na linha, por favor! Com aquele remédio minha filha sarou até criou cabelo e engordou!

Pajé Raimundo diz ainda manter contato com essa família e a moça, que na época tinha 15 anos de idade, agora já se casou e tem família. Então quando lhe propuseram pagamento não quis receber, pois se sentiu ajudado e tinha que agradecer por saber que seu remédio foi aprovado e que podia também curar a AIDS.

A esposa do Pajé ouve atenta o que o marido. Diz e depois confirma muitas curas que já presenciou ao longo da vida juntos. Exemplo da própria família: os filhos Umusîpo (Gisele); Mirupu (Reginaldo); Tôrâmú (Gilmar) e Dyakara (Wesley). Todos foram tratados com plantas e rezas tradicionais.

O Pajé ensina aos filhos a prática de cura com plantas e rezas, mas afirma ser difícil é só com muito tempo e muita fé. Assim ele baixa a cabeça e fica pensativo, dá um suspiro e continua:

- Queria que o governo entendesse que eu posso curar o que os médicos não curam. Se ele me pagasse um salário eu podia ensinar os médico nos hospitais e curar muita gente!

Pajé Raimundo fica de pé e fala com muita segurança:

- Eu sou profissional com as plantas e as rezas, os médico são profissionais na medicina deles, se junta comigo nos vamos curar muitas doenças. O governo tem que me escuta, eu quero ensinar o que sei e ajudar na cura do câncer, da AIDS.

Yupahkó a esposa e Umusîpo, a filha de 18 anos ouvem atentas enquanto o Pajé fala alto e acena insistindo para que alguém lhe ouça e entenda que ele é um curandeiro de verdade. Os turistas param e um se aproxima para receber a pajelança. Com muita segurança o Pajé ministra mais um trabalho que resume sua força, fé e muito mais a continuidade e preservação de sua gente, da sua história.

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