19/07/2008 19:11
II Aldeia Multi-étnica
Todas as tribos

por Alisson Alves, da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge

Rodrigo Lima

São quatro horas da tarde na Chapada dos Veadeiros. Numa profusão incrível de cores, os Mebengokrés (Kayapós) saem de dentro da mata entoando seu canto de boas vindas, simultaneamente às passadas fortes que marcam o compasso da música. Numa demonstração da hierarquia indígena, os homens estão à frente e as mulheres vêm logo atrás, carregando as crianças no colo.

Em seguida, entram na arena os Fulni-ô, dando gritos de saudação e tocando uma espécie de flauta de bambu, cujo som parece hipnotizar a platéia. Os Dessana finalizam a apresentação com uma dança de movimentos circulares onde, diferentemente das outras etnias, as mulheres estão ao lado dos homens. Marc Ros, espanhol que há seis meses viaja pelo país conhecendo a cultura brasileira, descreve a experiência: "É como se um túnel do tempo se abrisse na nossa frente. Que outra sociedade nos dá a oportunidade de conhecer seus ancestrais ainda vivos?", emociona-se.

Numa mistura do passado e presente, começou hoje a II Aldeia Multi-étnica, dentro a programação do VIII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. A abertura oficial foi transferida para domingo (20) em razão do atraso da chegada de algumas tribos participantes. Esse ano, a Aldeia discute a questão territorial indígena sob três aspectos: a ameaça fundiária, a questão dos índios urbanos e o diálogo entre a cultura indígena e a cultura popular.

Sandoval Amparo, produtor do evento, diz que a Aldeia Multi-étnica nasceu com o propósito de celebrar as culturas indígenas do Cerrado. "Sempre tivemos a presença dos índios no Encontro de Culturas, mas a participação deles foi ficando tão forte que decidimos criar uma programação específica sobre a temática para dar a profundidade que a discussão exige", explica.

Olavo Wapixana abriu a celebração falando da relevância da Aldeia Multi-étnica para o acesso às culturas irmãs, às raízes culturais brasileiras e sobre importância de darmos voz ao povo indígena, quase sempre relegados à condição de objeto de estudo. "É bom que se faça memória aos donos dessa terra e que se abram espaços ao povo indígena. Estamos aqui para compartilhar nossas diferenças e não ser meros espectadores. Somos parte de um todo", disse. O idealizador do projeto, Juliano Basso, resumiu o espírito do encontro da arte indígena com a arte popular. "Talvez a arte seja a única forma genuína de expressão da nossa cultura".

O indigenista e co-curador da Aldeia, Fernando Schiavini, chama a atenção para a desmitificação da convivência entre índios e não-índios e diz que este é um momento dos grupos de diferentes etnias se conhecerem. "Os índios estão adorando. Eles fazem amizade, aprendem um pouco da língua de outras etnias, trocam músicas, resultando em sons novos... Ontem fiquei de longe ouvindo eles tocarem, parecia uma sinfonia indígena. Nem imaginavam que seriam tão bem recebidos. Estou muito feliz com o resultado, não por mim, mas por eles", completa.

O público pôde acompanhar também a encenação do espetáculo Águas do Cerrado pela meninada do Turma Que Faz, sob a batuta da arte-educadora Doroty Marques. Marcada pela batida forte dos tambores, a cerimônia de recepção aos convidados e povos indígenas foi composta pela Dança das Lavadeiras de São Jorge, o Cacuriá (dança típica do Maranhão), o Muleiro e a Dança da Cachoeira, onde as crianças simularam movimentos de pássaros em homenagem à Chapada dos Veadeiros. Os índios e todos os presentes ficaram encantados com a apresentação, puxando aplausos acalorados. "Esse é o intuito da Aldeia, proporcionar a fusão da cultura popular com a cultura indígena", explica Sandoval.

O fotógrafo tocantinense Tharson Lopes, que carregava no colo uma criança Mebengokré enquanto assistia a apresentação, falou da experiência de participar da Aldeia Multi-étnica. "Acho a Aldeia um momento ímpar de intercâmbio cultural, porque as maiores fontes dessa troca, os índios, estão aqui convivendo entre nós. Isso põe abaixo aquele esquema improdutivo em que o público ouve e o convidado fala".

Vídeos sobre a questão indígena fecharam e atividades livres no pátio a programação do dia. No calendário do encontro estão ainda previstas Rodas de Prosa, mostras, exposições fotográficas, além de oficinas de artesanato, dança e música.

A Aldeia Multi-étnica receberá grupos e representantes das etnias Dessana, Cariri-Xocó, Krahô, Kaiapó, Avá-Canoeiro, Guarany-Mbya, Trumai, Terena, Guarany, Fulni-ô, Baré, Wassu, Xavante, Apinajé, Pataxó, Meakin e Wapixana. Participam ainda antropólogos, jornalistas, fotógrafos, educadores, escritores, instituições governamentais, ONGs, palestrantes, artesãos e turistas. 

enviar por e-mail | imprimir
topo da página | mais notícias

26/05/2009 - IX Encontro de Culturas
Vem aí o IX Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

02/08/2008 - Encontro
Zambiapunga e Turma que Faz celebram o fim do VIII Encontro de Culturas Tradicionais

02/08/2008 - Arcoverde na Chapada
"É só tocar um pouco de Fogo que a explosão ocorre”

01/08/2008 - Entrevista
“Incelente Maravilha”

01/08/2008 - Show
Música caipira faz as honras da casa


Conheça o espaço que o Encontro de Culturas preparou dedicado às artes e ofícios da cultura popular.


Programe agora sua viagem para São Jorge. Encontre as pousadas, campings e restaurantes da Vila.


Crônica
Djalma Correa – Sons repercussivos

 

Início | O Encontro | Programação | Imprensa | Palavra do patrocinador | Notícias | Ficha Técnica | Patrocinadores | Contato

2008. Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Um projeto da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge.
Fotos e matérias podem ser distribuídas desde que citados os créditos da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge e do fotógrafo.

Desenvolvido por Carlos Filho - websites Goiânia - www.carlosfilho.com