26/07/2008 17:36
II Aldeia Multiétnica
Krahô finalizam rituais na Aldeia Indígena Multiétnica

por Mariana Caldeira, da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge

Marcelo Scaranari

"Eu sou índio que nasceu na pele branca para falar para o povo branco o que o índio falaria e que na voz do índio o branco não escutaria."
(Daniel Andi - Pele Branca)

O sol veio pela manhã junto com o chamado de Osmar Kukon Krahô. Em alto e bom som, convidou todos parentes e visitantes para o último dia de festa na Aldeia Indígena Multiétnica, que iria prestigiar a cultura de seu povo. As mulheres, Puiê na língua Krahô, pintavam os homens de urucum e, num vai e vem de formas e cores, todos iam se ajeitando para a apresentação de mais um ritual no pátio.

Os Krahô possuem dois partidos ou duas metades: o Katam jê (que representa o inverno) e o Wakme jê (que representa o verão). Segundo a tradição, essas forças que estão presentes e regem a natureza e o homem. Eles acreditam que todos os seres, animais, vegetais ou minerais, possuem alma, conhecida como Karõ -

que pode afastar-se do corpo. Quando morre um Krahô, acontece a separação definitiva e depois o Kraõ se transforma em animal. O menino Krahô recebe o nome geralmente de seu tio materno, enquanto a menina quase sempre da tia paterna.


Seus rituais e celebrações são praticados com a mesma força que equilibra as "metades" de sua aldeia. O símbolo sagrado que mantém a harmonia e o respeito dentro da comunidade é o Khoyré, uma machadinha de pedra que o povo Krahô tem como elemento importante para continuar a tradição e a vida. Para eles, o pátio central, conhecido como Ká, representa o coração da aldeia e é o local onde a tribo se reúne para dividir o trabalho e tomar decisões importantes para a comunidade.

Todas as etnias se reuniram no pátio esperando as orientações de Kukon e Secundo Krahô. Eles convocaram os chefes de lideranças para mais uma roda de prosa, que iria discutir questões importantes sobre a construção da III Aldeia Multiétnica.

Kukon abriu a mesa pedindo união, dos Kupen (não-índio) com os Mehin (índio). "Eu quero fazer alguma coisa na minha Aldeia, desenvolver trabalhos, mas não tenho projetos, não sei fazer projeto, não sei escrever. Peço a ajuda de vocês", ressalta. Atentos às palavras do parente, Ourô, da etnia Mebemgôkre, também pediu apoio dos Kupen. "O homem branco ainda não fez um posto de saúde na nossa aldeia. Está faltando medicamento, falta quase tudo, transporte, cuidado com os mais velhos, com as crianças".

A força e o brilho nos olhos dos indígenas faziam crescer na roda o sentimento de compaixão.  Todos esses pedidos estavam sendo registrados na Carta dos Povos Indígenas, que logo depois do Encontro de Culturas será encaminhada ao Senado, à espera de futuras soluções efetivas.

Representantes da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) e estudantes se motivaram e responsabilizaram-se pela causa. Sônia de Paula, pesquisadora da FUNAI, responsável pelo transporte que levou os índios até a região da Chapada dos Veadeiros, fez uma consideração importante. "Quem trabalha com índio tem que amar o índio. Eu vejo gente que trabalha com índio, chega na FUNAI e lava a mão com álcool.  A equipe está fraca, as pessoas precisam entender a cultura indígena e divulgar seus problemas, para que o povo brasileiro fique mais consciente".

Sônia foi a primeira professora bilíngüe á trabalhar na FUNAI, para ela não só os índios devem aprender o português, os professores que vão trabalhar na aldeia também devem aprender as línguas indígenas. "Eu passei seis meses morando na aldeia, primeiro aprendi a língua deles, fui aluna, graças a Deus e depois pude passar um pouco dos meus conhecimentos. Eu tenho medo caso eles aprendam mais com a gente do que nós com eles", conta.

Um dos pontos colocados na Carta dos Povos Indígenas foi o direito A educação com professores bilíngües. As culturas devem se convergir, com propósitos que beneficiem ambas as partes. Ourô deixa bem claro isso. "Ninguém pode tomar cultura de ninguém. Nós queremos ter escola, aprender o português para comunicar com nossos irmãos, mas eles também têm que aprender um pouco do que somos nós".

Para Ourô, os índios nunca deviam ter deixado de ser o povo selvagem que era. "Os índios não deviam ter amansado, porque o índio agora ficou sem terra. Deus deixou para nós coisa bonita, coisa boa, não podemos e não temos direito de acabar com a cultura de ninguém. Eu nunca vou deixar de ser índio, nunca vou mudar, eu vivo no mato e vou viver até o meu corpo acabar".

Muitos ainda não se dão conta de que os indígenas são os verdadeiros donos dessa Terra. Por isso, a maioria das reivindicações pedia respeito. "De todas as rodas que participei, dos encontros que já fui e das tribos que já visitei, vi que a maior necessidade do índio é o respeito", fala Fernando Schiavini, indigenista brasileiro, também coordenador da Aldeia Multiétnica.

Outra consideração importante foi feita por Chico Silveira, antropólogo e documentarista. "Umas das questões que mais me intrigam é o fato de a FUNAI ser representada por um homem branco. O índio é que sabe o que sofreu, o que viveu e o que levaram dele. Os índios precisam se capacitar para um dia ocupar o lugar que é seu, e assim, falar em nome de seu povo", explica.

Os assuntos agitaram a roda e ficou no ar a diversidade de questões a serem trabalhadas, não só discutidas e teorizadas, mas colocadas em prática. Dali surgiu um importante documento, que vai contribuir com a realidade dos povos, com a permanência e memória de sua cultura, com seus direitos e merecimento.

Bruna Venceslau, estudante de geografia, foi quem redigiu a carta em nome dos povos. Ela se comprometeu a estruturar o documento, para que ele fique o mais original possível.  "Eu, estudante, transcrevendo a voz desses homens que tanto merecem, que não sabem falar para o homem branco. Me sinto honrada. Não quero deixar de trabalhar com eles nunca mais, por amor e respeito aos meus ancestrais", fala Bruna.

No fim do dia outras apresentações movimentaram o pátio. Os Krahôs viraram a noite com a luz da lua e o calor do fogo, embalados pelas danças e arte de seu povo.

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