28/07/2008 18:28
Shows
Um passado cheio de história

por Mariana Caldeira, da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge

Rodrigo Lima

Embalado pelas batidas das Caixeiras do Divino, o público do VIII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada do Veadeiros, fez festa na noite de segunda-feira. Elas trouxerem para o evento um Terecô de Caixas, brincadeira associada ao Festejo do Divino, convidando todos para dançar ao som de sua música. O Divino é celebrado em Terreiros de Tambor de Mina, Umbanda, Candomblé, em comunidades quilombolas e na casa de seus devotos, sempre com um grande poder de agregação das comunidades que o celebram.

"Olha a jaca, olha a jaca, olha a jaca madura..." Sem muita formalidade, a voz de Dona Carmina Rodrigues, uma das caixeiras mais antigas do grupo, transmitia o patrimônio imaterial da sua região. "As caixeiras são mulheres que conduzem o ritual para o Divino Espírito santo. A gente faz com alegria, porque é assim que ele fica feliz e traz sua graça até nós", conta.

Assim, a Vila de São Jorge ia ganhando a graça e a cultura do Maranhão. Elas, que vieram de Itapecuru, estavam muito felizes com a apresentação. "Eu gosto muito de ver os moços dançar, as moças, todo mundo dançando, isso é a coisa melhor que tem. Nós estamos aqui representando a fortaleza dos nossos antepassados", afirma Anaclita Pires, uma das integrantes do quilombo de Santa Rosa dos Pretos.

Até quem nunca esteve nesse tipo de festa entrou na roda para dançar. "Não tinha idéia do que ia ser esse Encontro. Agora eu chego aqui, vejo índio, vejo quilombolas, caixeiras. Não faz parte da minha realidade, mas sinto uma intimidade muito grande com todos eles aqui", fala José Inácio, de São Paulo, formado em ciências contábeis pela USP (Universidade de São Paulo).

Já Maria Carolina, veio para Goiás especialmente para o festival. "Vim há quatro anos atrás e não tive como ficar, a cidade estava lotada. Esse ano me programei dois meses antes, trouxe minha mãe, meu pai, a família toda adora. Em São Paulo, sempre vamos

nas festas da cultura popular, aqui é diferente, porque tem um gostinho de Chapada no ar".

O grupo Sopro e Cordas também fez festa no palco. Com vinte e cinco anos de estrada, eles apresentaram um trabalho essencialmente vocal, que usa violão, flauta e percussão. Uma mistura gostosa de MPB, samba, baião e xote.

No fim da noite, as caixeiras subiram novamente no palco para fazer a tão esperada apresentação do boi. O Boi de Zabumba Santa Rosa dos Pretos é um dos variados grupos de bumba-meu-boi do maranhão. Assentado na forte percussão, o grupo trouxe um ritmo socado, marcante e envolvente, e é caracterizado por uma batida rústica e cadenciada que lembra o rufar dos tambores africanos.

Um brilho especial e uma singularidade, representados na beleza das roupas dos rajados e vaqueiros. Com chapéus em forma de cogumelo o rajado promove um momento de rara beleza quando gira em torno de si, fazendo sobressair o grande número de fitas.

Já os vaqueiros usam calças e camisas de

cetim cobertas por golas e saiotes de veludo. A diferença que os distingue são os chapéus. Enquanto os rajados usam chapéus de fita, os vaqueiros usam chapéus bordados.

As tapuias (índias) são caracterizadas com saia de fibra de coco, elas dançam para o Boi, numa grande roda, indo e vindo, de fora para dentro. Sebastiana Belforçales, uma das tapuias, trazia nas veias o ritmo do bumba-meu-boi. Seu olhar, forte e descontraído, as tranças no cabelo e o rebolado caracterizaram a expressão da mulher negra. "Mãe me ensinou a dançar quando eu tinha dois anos. Eu mal sabia andar, mas rebolava quando ela cantava para mim. Eu sou isso aqui, não sei fazer outra coisa, nem quero", afirma.

A goiana Luciana Medeiros, professora de dança, disse que ficou impressionada com o jeito carinhoso das caixeiras. Ela participou da oficina á tarde na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, não estava de saia, mas logo conseguiu uma. "Eu estava de calça, fui só para ver elas dançarem. Quando eu vi, já estava na roda, uma das senhoras tirou a saia me deu. Fiquei emocionada. E quando a gente dança de saia, é outra coisa". Ela diz que não devemos considerar a dança por ela só, mas a história que as senhoras trazem na bagagem.

Líbano Pires, cantor e dançarino do grupo, finalizou á noite com suas palavras. "Essa cultura não é de Santa Rosa, não é do Maranhão, é de Goiás. A hora que Goiás quiser ir passear na nossa casinha, nós estaremos de braços abertos. Aonde eu for eu vou levar Goiás". Esse é o encontro, sua essência se faz na mistura das raças, das cores, dos estilos e da cultura de cada "povo". Um passado deixado para sempre, no qual somos todos herdeiros.

enviar por e-mail | imprimir
topo da página | mais notícias

26/05/2009 - IX Encontro de Culturas
Vem aí o IX Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

02/08/2008 - Encontro
Zambiapunga e Turma que Faz celebram o fim do VIII Encontro de Culturas Tradicionais

02/08/2008 - Arcoverde na Chapada
"É só tocar um pouco de Fogo que a explosão ocorre”

01/08/2008 - Entrevista
“Incelente Maravilha”

01/08/2008 - Show
Música caipira faz as honras da casa


Conheça o espaço que o Encontro de Culturas preparou dedicado às artes e ofícios da cultura popular.


Programe agora sua viagem para São Jorge. Encontre as pousadas, campings e restaurantes da Vila.


Crônica
Avá–Canoeiro – Solidão como herança

 

Início | O Encontro | Programação | Imprensa | Palavra do patrocinador | Notícias | Ficha Técnica | Patrocinadores | Contato

2008. Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Um projeto da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge.
Fotos e matérias podem ser distribuídas desde que citados os créditos da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge e do fotógrafo.

Desenvolvido por Carlos Filho - websites Goiânia - www.carlosfilho.com