31/07/2008 18:32
Cultura Bantu
Kazadi - Contribuição Bantu na cultura brasileira

por Sinvaline, da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge

Rodrigo Lima

Kazadi Wa Mukuna nasceu na República Democrática do Congo, em Kinshasa onde fez seus estudos primários e secundários. Depois foi para os Estados Unidos da América completar seus estudos na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, onde fez doutorado em etnomusicologia. Veio para o Brasil em 1974 na USP onde concluiu seu segundo doutorado em Sociologia (1977). Atualmente é Professor Titular na Universidade Estadual de Kent, em Ohio. Kazadi está no Brasil há 3 meses a convite do Centro de Estudos Culturais Africanos e da Diásporas da PUC/SP com apoio da FAPESP.

Kazadi participou do VIII Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros em Rodas de Prosa e Oficinas de música vocal africana. Com muita sabedoria fala da contribuição Bantu na música e em toda a cultura brasileira. Explica como o Brasil foi lotado de escravos com navios transportando milhares de escravos que entravam aqui transferindo assim sua cultura para o Brasil.

Segundo ele, a descoberta do ouro requisitou mais escravos. A preferência dos europeus eram os povos bantu, porque eram  fortes, obedientes e até considerados dóceis pelos europeus. Estes ficavam nas minas por 7 anos e depois eram vendidos para trabalhar em outras regiões nas plantações por todo o Brasil.

Essa distribuição influiu na cultura de modo geral, mais ainda na música atual com a linguagem do som que é comum na linguagem africana e pode ser notada na lingüística. Para Kazadi, tudo o que se quer saber da música africana está na linguagem: desde a melodia, ritmo, harmonia, os tons, a ginga que vem da língua. Ele tem a preocupação com a música religiosa que é fonéticamente ensinada e assim as palavras perdem o sentido.

A diversidade das melodias vem da situação em que o africano foi forçado a aprender outras línguas como o português, espanhol, francês e até mesmo o holandês, porém manteve a estrutura sintática da sua língua que produz o ritmo da sua música. Por isso, o que prevalece nas músicas criadas pelos Africanos é o conceito da organização ritmica que o Africano nunca vai se perder por onde estiver.

Argumenta Kazadi:

- O conceito de organização rítmico é baseado sobre a crença dos africanos que cada padrão rítmico tem buracos, que são preenchidos por outros padrões que também tem buracos. O resultado final é o entrelaçamento dos ritmos numa tapeçaria rítmica. Enfim, o movimento chave de dançar dos bantos é diferente

dos sudaneses.

Kazadi acentua que não se pode dizer que tudo veio da África, há muitas coisas que foram criadas aqui com elementos africanos, se diz que veio da África é basear no sentimental e não científico. É o resultado da cultura não ser estática e evoluir com o tempo. A oralidade africana existe mais no Brasil: está no bate-papo, no som, na alma do indivíduo,  no mito e nas histórias.

Na oficina ele canta músicas africanas e uma em especial, "Senzenina", da África do Sul,  é um lamento que traduz:

"O que fizemos para sermos tratados assim? Só porque somos pretos? O que fizemos para sermos tratados como animais?"

Senzenina, Senzenina, Senzenina.. Wabulele afe worke... Sine sebu bubum wuama

É uma canção saudosa que leva bem próximo a dor da escravidão.

Kazadi considera importante separar o conceito de filosofia da existência entre africanos e europeus, pois isso faz parte e sustenta a oralidade ou ancestralidade no sentido de não se limitar ao momento, tem raízes. Esse conceito se projeta aos dias atuais: o europeu (Brasil herdou a filosofia: eu penso, eu sou (físico e individual). O africano diz (eu pertenço, portanto eu sou), no sentido físico e conceitual e formal; minha existência só tem significado enquanto eu e você estamos; eu sou porque você é, estou aqui porque você está.

Resumindo diz:

O racismo chegou ao Brasil  logo depois da abolição , é minha opinião. No início o português não tinha motivo para se assustar, pois ele veio atrás de riquezas e não para ficar, deixou a família. Mas chegando aqui se assustou e o resultado? É só olhar em volta a miscigenação.  Quantos pretos têm no Itamaraty?  Quantos ministros pretos ou índios? No Brasil não existe racismo?

Sobre a religião africana que sobreviveu no Brasil, garante ele ser de origem sudanesa. A religião Bantu é diferente, ela tem uma ancestralidade limitada. Não se pode chamar um ancestral que não é da família e exemplifica:

- Na minha família quando meu pai invoca nossos ancestrais, minha mãe não participa, ela é de outra família. Imagine aqui no Brasil se nem conhecem a linhagem qual ancestral se chama? Não se pode chamar quem não se conhece.

E continua:

- Bantu invoca os ancestrais pelos nomes identificando diretamente. Meu pai me carregava no colo para invocar os ancestrais assim como meu avô fazia com ele.

Kazadi conclui que o que acontece hoje no Brasil com a música, a religião e outras manifestações é  uma mistura do preto, catolicismo, costumes indígenas repondo vácuos. A fala de Kazadi conclui com a interrogação:

- Por que o brasileiro prefere ser chamado de negro em vez de afro-descendente? O que acontece, não entendo!

Kazadi termina citando o professor Kbengele: "Todos somos afro descendentes porque a África é o berço da humanidade."

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