01/08/2008 13:54
Música
Djalma Correa – Sons repercussivos

por Sinvaline, da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge

sinvaline

Djalma Correa nasceu em Ouro Preto, no Estado Minas Gerais no ano de 1942, sua formação musical foi em Salvador onde estudou percussão e composição nos seminários da Universidade Federal da Bahia com professores como Walter Smetak, Hans Joachim Koellreuter e outros.

Foi nessa época que aconteceu a entrada no palco do primeiro grupo experimental de música popular com o  show " Nós por exemplo" no Teatro Vila Velha com  Djalma Correa, Betânia, Gil, Caetano, Gal Costa e Tom Zé. Foi a porta de entrada para convites e muitos shows. O grupo foi para São Paulo , porém Djalma continuou em Salvador com suas pesquisas.

Djalma Correa lembra que quando chegou à Bahia soube da existência de uma lei antiga proibindo tocar tambor nas igrejas porque era cultura negra, existia um toque - o batacotô - que foi banido e era proibido em qualquer lugar e não se podia nem pronunciar esse nome, era um chamado de guerra. E conta:

- Nas minhas pesquisas descobri o documento que proibia o toque do tambor e ainda que eles fossem queimados. O batacotô foi usado durante as revoltas, era um toque de luta! Criei então a releitura do toque que não tinha registro, fiz a trilha sonora, ou seja, uma síntese dos toques.

Etno- musicologia foi um trabalho de Djalma Correa documentando os candomblés da Bahia. Esse acervo ainda não publicado conta com 10 mil slides, 30 mil pés de fitas gravadas (filme super-8)  e ainda a parte manuscrita.

Ele não quer comercializar esse acervo e pretende dar um destino a ele, mas não sabe ao certo o que será e diz:

- Não posso comercializar, são documentos de confiança coletados em sessões de terreiros e comunidades baianas e de todo o Brasil.

Djalma Correa propôs uma releitura desse acervo com a Universidade e teve o apoio do Instituto Goethe e a partir desse apoio se formou o grupo "Baiafro" com 3 percussionistas. Com isso despertou o interesse geral crescendo resultando no Movimento Integrado Baiafro, e diz:

- Foi uma releitura séria e verdadeira, envolvendo mães de santo e comunidades baianas. Desse Baiafro foram exportados muitos artistas.

Sorridente Djalma comenta:

-  Imagine você que tenho a carteira de músico com o número 1526!

Um pouco desse trabalho de pesquisa ele fez um CD Room "Brasil Afrodescendente" enriquecendo com depoimentos de estudiosos do assunto como Ney Lopes, Abdias Nascimento, Muniz Sodré,  Mary Del Priore, e Raul Lody , entre outros .

A carreira musical de Djalma Correa é uma sucessão de acontecimentos bons, viaja todo o planeta mostrando seus sons percussivos. Agora tem uma pesquisa com os sons dos sinos.

- Os sinos têm sons diferenciados, quero pesquisar esse som que faz parte da história do Brasil, toda cidade tem seu sino e seus sons que identificam: chamados, velórios, casamentos, missas, reuniões, etc.

Para essa pesquisa ele pretende conhecer várias localidades brasileiras que tenham sinos com sons diferenciados.

Djalma se orgulha de ter vestido a camisa da "música espontânea":

- É uma meta um pouco complexa, pois não é improvisada, é um momento sem limite e pode tomar qualquer caminho dependendo do conhecimento que o outro tem, é como tirar a roupa em público. É uma música que nunca vai se repetir,  portanto não tem ensaios.

Sua "música espontânea" já foi dividida com grandes nomes como Patrick Moraz, Stênio Mendes e tantos outros.

Outra formação de percussão que Djalma destaca é a que aconteceu no 1º. Festival de jazz Montreux de São Paulo com 1 piano e 18 percussionistas, foi a primeira vez que se juntaram sons do piano e da percussão. Brinca dizendo:

- Pela primeira vez eu trouxe  a cozinha para a sala!

Continua pesquisando e compondo e seu trabalho é sempre voltado à linguagem da percussão. Sua definição da percussão no Brasil:

- O Brasil não é o berço da percussão, porém me baseio no triângulo que se formou com o negro, o índio e o branco. Essa trilogia percursiva no Brasil é única no mundo, é uma fusão maravilhosa que varia de acordo com a cultura de cada região.

Exemplifica como encontrou em Portugal bem viva a tradição do Zé Pereira que foi a primeira que viveu ainda na infância.

Djalma afirma que a percussão surgiu na  África e depois para o mundo, acredita que todo ser humano passa pelo aprendizado da percussão:

- A batida do coração no útero da mãe,  é um som da percussão,os 9 meses no útero materno é a primeira escola de qualquer ser humano!

Segundo ele, nos tempos ancestrais o poder mágico da percussão era das mulheres, que se encarregava dos rituais enquanto o homem caçava e pescava, a mulher era divinizada, tinha o poder de parir filhos. A situação mudou quando o homem descobriu que se ele não copulasse, a mulher não paria e nessa evolução a mulher perdeu um pouco. Mas a percussão feminina existe em todo o mundo e confirma:

- Acho que a percussão requer sutileza, carinho, a mulher é a mais adequada.

No Encontro de Culturas de São Jorge Djalma Correa conviveu com grupos de todo o Brasil e teve a surpresa de encontrar mulheres kalungas que batem a "bruaca ou buraca", uma espécie de caixa feita com couro de boi para transportar mercadorias em lombo de burros. Ficou muito emocionado em conhecer mais essa forma de percussão, e mais ainda quando foi presenteado por Juliano Basso, organizador do evento, com uma bruaca.

Sobre ter reconhecimento de seu trabalho no Brasil, ele sorri e fala:

- Ah, santo de casa não faz milagre! Mas o objetivo principal  do meu trabalho se faz sempre na multiplicação, tenho contribuído no que posso, principalmente no efeito multiplicador e minha percussão está em todo o mundo.

Fica pensativo e conclui:

- Mas é assim mesmo, continuo com a música espontânea e não gosto de ensaio,  assim se mostra a alma de verdade.

Djalma Correa se preocupa com o destino da percussão:

- O modismo do tambor traz o distanciamento da sutileza do tambor e do que é realmente a percussão.

Djalma Correa é reconhecido pelas pessoas nas ruas e com muita simplicidade fala com todos e tenta passar o que sabe, transmitindo com sabedoria segredos  de um mestre da percussão.

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