31/07/2008 10:27
Sustentabilidade
Culturas Populares Sustentáveis?

por Mariana Caldeira, da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge

 

As duas rodas de prosa que aconteceram na tarde de quarta feira, no espaço Petrobras, receberam nomes distintos, mas que se convergia em vários aspectos. A Cultura Popular foi apreciada pelos empreendedores do Turismo Sustentável, em um discurso reservado especialmente para o VIII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.

A procura pela sustentabilidade teve seus ganhos, mas muito ainda precisa ser feito, defende o jornalista Elias Martins, mestre em consultoria. "O turismo sustentável tem que fornecer seus próprios recursos, não adianta esperar investimentos de ONGs, de empresas privadas. Não podemos proibir o contato do homem com a natureza, mas devemos tomar providências para que ele não prejudique o ambiente".

Para Elias, além de ser economicamente viável, o turismo deve considerar o "tecido social", o cimento que faz com que as pessoas permaneçam na região. "Os nativos não podem ser colocados de lado, isso é paternalismo. A visão empreendedora deve recuar-se as necessidades das comunidades, priorizando seus valores", afirma.

Cinira Fernandes, engenheira agrônoma, representante do projeto Floresta Viva, realizado na Área de Proteção Ambiental de Itacaré (APA), contou um pouco da sua experiência."Alinhamos o desenvolvimento turístico com o trabalho dos agricultores que viviam na região. Muitos venderam suas terras por preços muito baratos e hoje, estão alojados em Itacaré á mercê dos problemas sociais".

Esse turismo, que integra a comunidade no processo, é chamado de Turismo de Base Comunitária, explica a engenheira. "Temos um compromisso com a paisagem do sul da Bahia e vamos auxiliar as estratégias do governo federal e estadual, auxiliando a agricultura familiar, o turismo com a conservação da biodiversidade, das florestas e dos recursos hídricos locais. Por isso, todo mundo está envolvido e comprometido com a base desenvolvimentista do projeto", conclui.

O Floresta Vivatêm beneficiado comunidades em diversos cantos no Brasil. Ariane Dias, quilombola do sul da Bahia, veio acompanhando Cinira e deu seu depoimento á favor do projeto. "O Turismo é nossa fonte de renda. Já que ganhamos com ele, temos de trabalhar para que ele não prejudique nossa região e beneficie nossa comunidade".

O turismo sustentável, deve ser social, ambiental e cultural, volta a afirmar Elias. "Não podemos colocar em risco nenhuma espécie e devemos, como prioridade, valorizar a cultura da região". Bruno Teixeira, do Ministério do Turismo, Técnico da Coordenação Geral de Projetos de Estruturação do Turismo em Áreas Priorizadas, também esteve presente na roda e sinalizou excelentes perspectivas para o desenvolvimento no país. "É muito interessante perceber como uma constituição federal vai aprendendo a ouvir as comunidades locais. Eu sempre digo, precisamos ter humildade e reconhecer que muitas vezes não sabemos nada. Nós vamos aprender mais com eles ou eles com nós?", questiona.

Bruno fez considerações importantes a respeito das ações não governamentais que movimentam o Brasil. "As ONGs devem atuar sabendo que, vai chegar uma hora que não vão ser mais necessárias. Elas devem proporcionar o desenvolvimento da região, mas permitir que elas andem por si só. Fico feliz porque temos o Ministério do Turismo e não a Indústria do Turismo".

CULTURA E TURISMO

Seres humanos são motivo de conhecimento e curiosidade também, cita Fabíola Rezende, do Ponto de Cultura Invenção Brasileira e representante da Ação Griô, que busca fortalecer a identidade do povo brasileiro, por meio do lugar social e político-cultural dos griôs e mestres na educação. "É preciso considerar uma série de fatores. As expressões populares, o conteúdo social, a necessidade de saúde, de renda, de educação, há pouca transversalidade nessas questões".

O Museu Vivo foi uma das propostas levantadas por Fabíola. "O turismo não é só pelo que ele faz, mas pelo que ele é. Vai ver como um mestre garimpa, como tira o mel da abelha, isso faz com que a gente se reencontre no outro, fortalecendo o que existe na gente". Para ela, é preciso tomar cuidado com as interferências. "Muitos vezes, o que propomos não é o que as comunidades necessitam. E o erro ta ai, porque perdemos elementos culturais importantes", afirma.

Foi a partir desta idéia que fez surgir a necessidade de se fazer inventários, explica Marcelo Mazatti, da Rede de Culturas Populares. "Precisamos ter as manifestações dessas regiões inventariadas. Esse registro cria uma visibilidade maior das comunidades, valorizando seus costumes, sem perdas e danos", conta. "O problema é que um quer se beneficiar do outro, uma cultura querendo dominar à outra. Não acho que ninguém tenha culpa de nada, mas precisamos urgente assumir nossa responsabilidade", continua.

No fim da tarde, quando a roda de prosa já se dava por concluída, Procópia dos Santos Rosa, da comunidade Kalunga, surpreendeu todos com sua presença. Ela foi uma das 52 brasileiras indicadas para o Nobel da Paz em 2005. "Eu estou bem, mas enquanto todos aqueles que estão ao meu lado não estiverem, não descanso. Precisamos montar uma associação para representar o nosso povo, eu lutei tanto e quem ganhou foi os outros. Parece que ninguém enxergou o que eu fiz", fala.

São cerca de 1200 famílias vivendo espalhadas em uma área do município de Monte Alegre e Cavalcante, no nordeste goiano. A luta de Procópia, dos quilombolas e das populações tradicionais promete ser longa. Ainda há muito o que fazer para garantir o compromisso do país com essas comunidades.

O Brasil é riquíssimo pelas suas diferenças, mas muitos ainda não sabem conviver com elas. O resgate das culturas tradicionais no Encontrovem tentando melhorar isso, construindo novos saberes, mais humanos e democráticos.


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