Dessana - 21/07/2010

Dessana, a força de uma etnia

Kisibi-Kumu, o pajé Dessana, fala sobre a influência dos padres e a resistência de seu povo

por Sinvaline Pinheiro

Foto: Anne Vilela

A etnia Dessana tem sua origem no Alto Rio Negro, às margens do rio Tiquié, bem perto da fronteira com a Bolívia. O pajé curandeiro Kisibi-Kumu, orgulhoso do fortalecimento de sua cultura, fala de detalhes da trajetória milenar da etnia. Ele faz questão de dizer que o relato é  baseado em tudo que aprendeu com seus pais e avós, uma tradição que ele, com muita luta, tenta conservar.

Atualmente eles residem no baixo Rio Negro numa área própria e até pagam impostos. Sobrevivem do turismo, artesanato e outras sabedorias indígenas, e não possuem assistência da FUNAI. Dentista é particular; quanto às outras doenças, são tratadas pela sabedoria do Pajé Curandeiro Kissibi Kumu. Estão em Manaus desde 1995, porem o Pajé lembra que seus pais e avós ficaram no cemitério da Missão São João Bosco, no Alto Rio Negro. Ele se entristece quando fala sobre a cidade de Pari Cachoeira:

- Os padres chegaram eu era menino, tentaram nos catequizar, acabaram com nossa cultura e nos obrigaram a rezar. Nossa riqueza, tradição, tomaram tudo falando que era "coisa do diabo", pecado mortal, hoje cobram 20 dólares por turista para ver nossos instrumentos no museu de Manaus.

Segundo a filha do pajé, Dyakapiro (sereia da água), os padres chegaram para catequizar os índios, separaram os rapazes e moças para não "pecarem" e os levaram para o internato, onde eles trabalhavam serviço pesado debaixo de leis rígidas. Em caso de desobediência, eram castigados com régua de madeira ou então com um barbante amarrado na língua.

Pari Cachoeira se tornou uma cidade católica, os instrumentos indígenas foram recolhidos e estão no Museu de Manaus até os dias de hoje. A casa indígena ficou conhecida por Maloca, junção de mal e oca, devido aos rituais indígenas considerados "coisas do demônio". 

Dyakapiro diz que ouve histórias dos mais velhos como a do exército que construiu três quartéis e os soldados engravidaram muitas índias. O pai completa:

- Mas eu recuperei tudo, fiz novos instrumentos, ensino a música, a comida para minha família e tenho orgulho disso, não tenho medo de "morrer queimado no fogo" como diziam os padres.

Foto: Anne Vilela
 
Pajé curandeiro Kissibi Kumu: "O branco marca tudo no papel, o índio tem tudo na cabeça"

O Pajé Kissibi participou do filme Tainá I e já gravou a participação no Tainá III como pajé curandeiro que espanta o espírito mau e resgata a natureza. A crença Dessana sobre a morte é bem interessante. Ele explica:

- Quando morre, o corpo fica na terra, a alma vai para cima e a sombra volta para sua origem. Borika (Deus), mora no espaço e nós somos um pouco Dele; quando morre volta e a sombra continua na Terra, por isso temos a força dos antepassados. Se não existisse essa sombra, os indígenas não existiriam mais na Terra. Essa sombra que ensina os remédios com plantas, as orações tradicionais. O branco marca tudo no papel, o índio tem tudo na cabeça.

E continua:

- Aprendi aos 10 anos de idade as rezas tradicionais com meu pai. Toda noite ele me ensinava até as três da manhã durante um ano. E depois fazia a prova e me dizia: "Filho, agora voce vai ser o professor. Me conte tudo o que ensinei pra ver se aprendeu".

Segundo ele, a origem Dessana é milenar e começou no Rio de Janeiro, nos morros. Seus antepassados eram invisíveis até que Borika construiu uma canoa de cobra onde foram embarcados 26 etnias diferentes tendo a Dessana como cabeça. Desceram pelo leito do rio saindo do Rio de Janeiro até o rio Uaupés e na Cachoeira Ipanoré eles saíram em quatro buracos, ganhando forma humana.

Olhando para o céu ele diz:

- Logo depois do dilúvio, Borika fincou o bastão no centro do mundo e marcou Norte, Sul, Leste e Oeste, e em círculos o território indígena. Por isso, para os indígenas, o mundo não tem fronteiras, eles são os pioneiros da Terra.

Nesse espaço perto de Manaus eles resistem conservando sua cultura. O pajé reconstruiu quase todos os instrumentos:

- Como eu vi meus pais fazendo, vou lembrando e construindo. Fico triste porque os padres nos ensinaram que não podia mentir, roubar... mas eles roubaram nossos instrumentos dizendo que iam queimar e hoje estão no museu do Índio em Manaus, rendendo dinheiro para eles.

Os Dessana possuem regras que o Pajé tenta dar continuidade: o casamento entre indígenas com o parceiro escolhido por ele, mas a filha contesta:

- Não sei se vai dar certo nos casar com índio, pode ser...Gosto de viver onde estou, sou feliz aqui, mas a escolha do parceiro deve ser minha, com índio ou branco.

Para Kissibi Kumu, o homem branco tentou mudar a cultura indígena no início, mas atualmente há uma troca de idéias favorável a ambos. Como exemplo, cita o celular, computador, internet. Se o indígena souber usar, lhe será útil, porém existem coisas que atrapalham e, em sua concepção, a pior é a bebida alcoólica, pois o índio não sabe lidar com ela.

Na Aldeia Multiétnica, os Dessana apresentam seus rituais com muita classe e orgulho, são exemplo de persistência, de união e força.

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Comentários nesta matéria:

Ivone M.Ribeiro dos Santos disse em 07/04/17 | 17:35
Boa noite gostaria de saber se da para visitar esta tribo e como.

Atenciosamente.

Ivone


Antônio Bretas disse em 26/11/16 | 17:44
Amigos, Não entendi alto do Rio Negro, divisa com Bolívia, ???


Iasmine disse em 30/07/10 | 16:06
Olá! Foi maravilhosa essa convivência com as etnias. A Anne Vilela, tirou uma foto minha quando tinha acabado de ser pintada. Gostaria de ter essa foto. Obrigada, lindo site. Iasminelc@hotmail.com


Andrea Abreu disse em 27/07/10 | 12:06
Agradeço ao Pajé Kissibi (Sr. Raimundo)por ter nos proporcionado dias maravilhosos na Aldeia multiétnica na Chapada dos Veadeiros GO .
Essa convivência permanecerá para sempre em nossas almas,agradeço a Deus, ter vivido esse momento mágico. Obrigado a todos!


umussy fontes disse em 24/07/10 | 04:52
Muito legal o trabalho de voces,espero que possam sempre dar continuidade a esse trabalho tão benéfico à todas as etnias.
Obrigada!!!encontrodeculturas!


Wagner de Andrade Figueira Junior disse em 23/07/10 | 19:25
Deixo um abraço pra seu Raimundo e suas filhas lindas Dessana.

meu telefone: 61 3489 2658
Wagner


Marcelo AZENGO disse em 23/07/10 | 17:11
Kisibi Kumu - Admiro o sr. Raimundo. Convivi muito de perto com esta família e vi o quanto ela é bela. Salve seu Kasibi! Salve os Dessana!


jean disse em 22/07/10 | 10:04
Tive a honra de conhecê-los na Aldeia. É um povo que emana uma energia positiva indescritível. Muito brigado.







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