Guarani-Kaiowá - 23/07/2010

Guarani-Kaiowá - Sutil, belo e triste

Luta e resistência em defesa de um povo

por Sinvaline Pinheiro

Foto: Anne Vilela

Cacique Guarani-Kaiowá na IV Aldeia Multiétnica

No X Encontro de Culturas a presença dos Guarani-Kaiowá foi destaque pela sutileza do grupo, que apesar de pequeno, conseguiu prender o público com seus rituais e acima de tudo com a aflição de uma etnia sofrida em busca de soluções para os inúmeros problemas que atingem as aldeias no Mato Grosso do Sul.

Eles conseguiram resistir à catequização dos jesuítas e mesmo convivendo com estrangeiros ainda conservam a língua e a cultura de uma espiritualidade que considera acima de tudo a Terra, sua origem e especialmente o "Grande Pai, Ñande Ru".

O Cacique Getúlio Kaiowá, da Aldeia Bororó, faz um discurso eloquente quanto à situação de seu povo. Segundo ele, o governo do Estado não atende as reivindicações e por isso fez um apelo aos "parentes" que os ajudem no sentido da implantação de escolas nas aldeias com professores indígenas.

- Só assim a criança não vai à cidade aprender coisas e fica na aldeia aprendendo na prática como "nois" planta, o que "nois" come, falando a língua tradicional. Nossa família indo pra cidade "nois" não pode "aceita". Precisamos de uma escola indígena dentro da aldeia, senão do jeito que vai, vai acabar a etnia Kaiowá, Terena, não tem mais cultura e isso é triste.

No município de Dourados (MS) há uma população de 16 mil pessoas e aproximadamente seis mil famílias Kaiowá vivem em 3500 hectares de terra. Esse povo, de acordo com o cacique Getúlio, precisa conservar sua cultura para não se perder.  Muitos para sobreviver vão para o trabalho em plantações de cana de açúcar e em usinas de álcool  e de lá voltam totalmente marginalizados.

Emocionado, ele  fala sobre os jovens com idade entre 10 e 16 anos que dispensam a escola e vão para o canavial:

- Eles voltaram maior malandro, as crianças não têm idade ainda. Na Aldeia em Dourados tem menino de 12 anos matando de facão, tirando o pescoço de machado, juntam  quatro ou cinco menores matando mulheres, homens. Isso acontece por causa do ensinamento que não foi bem. Se fosse bem ensinado não teria esses problemas na aldeia, isso nossa preocupação. Queremos levar educação, escola indígena, vamos batalhar por isso, uma escola separada para a cultura indígena. Hoje na aldeia de Dourados não pode andar a noite, ficou perigoso e onde vamos reclamar?  FUNA (Fundação Nacional do Índio), MP(Ministério Público), Justiça, ninguém resolve.  Essa preocupação eu passo para ter apoio dos parentes, espalhar para o Brasil inteiro.

As reclamações são inúmeras, todas no sentido de preservação da cultura Guarani-Kaiowá.  Esse grupo representa o exemplo da resistência de um povo sofrido como a maioria dos indígenas em todo o Brasil.  

No Centro da Aldeia Multiétnica eles esquecem os problemas e se revelam com  classe, envolvendo o público com os rituais. A principal cerimônia Kaiowá chama-se avati kyry, que é o batismo do milho. O líder religioso faz um canto comprido e cada verso que o líder canta é repetido pela comunidade e  acompanhado pelo som da mbaraka e do takuapu. Chama a atenção o ritual em que elevam a pessoa numa espécie de maca de varas. O homenageado é carregado no centro da aldeia e depois recebe os cumprimentos e uma bebida a base de  batata.  O momento contagia o público e por instantes não há diferenças, todos são indígenas e são iguais.

 

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