NOTÍCIAS

01/08/2011 | Conexão África

Caleidoscópio beninense

Grupo Towara Benin apresenta suas danças, homenageando diversas divindades, na última noite do XI Encontro de Culturas

por Giovanna Beltrão


O caleidoscópio de cores nas roupas dos beninenses Foto: Anne Vilela

Depois de uma semana interagindo com outras culturas e ensinando sobre a sua por meio de oficinas e vivências, o grupo Towara Benin se apresentou no palco do XI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, na última noite do evento. Os 12 beninenses que vieram ao Brasil eram liderados por Marcel Zounon, presidente do grupo.

Cinco músicos, quatro dançarinos e três dançarinas. Foi essa a formação que deixou o público boquiaberto em frente à Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. O grupo completo é formado por 70 pessoas, entre adultos e crianças.No palco, sons e movimentos se sobrepunham, unidos a um figurino cheio de cores fortes e estampas caleidoscópicas. Ao longo de uma hora e meia, o Towara Benin apresentou oito danças e ritmos característicos de sua cultura: Gueledê, Dan, Héviosso, Dogda, Atchina, Blekete, Sakpata e Masse.

Como a apresentação foi focada nas danças, Marcel Zounon falou um pouco sobre as regiões nas quais alguns ritmos são tocados e cantados no país.  “Os ritmos e as manifestações são numerosos. A respeito dos ritmos, temos o Tchengoumê, encontrado no centro do Benin, o Akong, dos palácios reais da República do Benin,o Gueledê e Massê, vindos do sudeste do país, Adjobo e Abagdja, do sudoeste, e o Téké, Sessemou e Kiarou, encontrados no norte do Benin. Pode-se dizer que os ritmos variam quando vamos do sul ao norte do Benin, passando pelo centro”, explicou.

Towara

O Towara Benin surgiu em 1992, a partir da junção de duas trupes de dança: Towakpon e Agora, respectivamente com 18 e 10 anos de experiência. O Towakpon era especializado em ritmos do sul, e o Agora, nos do norte do Benin. A ideia da junção veio com o objetivo de criar um grupo que pudesse abranger toda a nação e integrar os ritmos. “Towara” quer dizer poder, o poder da cultura do Benin.

O Benin é um país da África Ocidental, considerado um dos mais democráticos de todo o continente africano. Sua cultura baseia-se no vodu e no orixá, sendo o trabalho do Towara Benin voltado à pesquisa do panteão vodu, que destaca as danças e as músicas dos terreiros e das savanas tropicais. Desde 1996, o grupo faz turnês internacionais, já tendo passado por toda a Europa, Rússia, Estados Unidos, Japão, entre outros.

Apresentação

O Grupo começou o show apresentando o Gueledê, uma representação de uma cerimônia especial da comunidade Yoruba Nago. “O Gueledê é essa sociedade de máscaras, ainda totalmente mantida pelas mulheres. Posso dizer que é uma das sociedades tradicionais mais sólidas, mais solidamente ancoradas nas nossas tradições, e guardadas pela mulher: a chamamos Iya N’ La, quer dizer a mulher primordial, a mulher mais velha da sociedade”, comentou Zounon. Desde 2001, o Gueledê é considerado pela Unesco como patrimônio oral e imaterial da humanidade. Durante a dança, os dançarinos utilizam máscaras que representam figuras de animais e cantos Yorubas. Também é uma dança de fertilidade e abundância para a comunidade Yoruba Nago do Benin.

Em seguida, o grupo apresentou o Dan, que é uma dança da divindade da fertilidade. É a esta divindade que os beninenses do Sul do país dedicam seu coração quando têm algum evento importante. A peculiaridade da divindade está no fato de que, tendo obtido o que pedem, é necessário oferecer tudo de volta, correndo o risco de perder tudo aquilo o que obteve há pouco tempo. 

A dança mostrada em seguida foi a Héviosso, dança da divindade do céu, da chuva e dos raios. Esta divindade tem a característica de castigar os homens de atitudes ruins como, por exemplo, os que praticam o roubo, a violência e o estupro. Ela denuncia os maus comportamentos do ser humano, dos homens que habitam a Terra. A quarta dança foi o Dogda, executada pelos cavaleiros do antigo reino do Dahomey (República do Benin) durante o retorno triunfante depois de uma expedição. A dança mostra a coragem das mulheres guerreiras, as amazonas.

Seguindo a apresentação, o grupo apresentou a Atchina, uma dança da Héviosso, a divindade do céu, da chuva e do raio. Atchina é outra representação da dança Héviosso, que também poderia ser chama de Tchango no dialeto yorubá. A sexta dança foi o Blekete, da divindade da água (Mamiwata) e da cola (Golo Vodoun). As duas divindades protegem as comunidades e lhes permitem obter a riqueza e a felicidade. Os ritos levam em conta o perfume, o talco e a cola para enriquecer as divindades que, em retorno, lhes concedem a proteção e a abundância.

As duas últimas danças mostradas pelo Towara Benin foram a Sakpata e o Massê. A Sakpata é a divindade da terra e das doenças, sobretudo, a varíola. Esta divindade permite os antepassados levem as doenças endêmicas e epidêmicas para longe do círculo de conhecidos. Por fim, o Massê é uma dança executada ao longo da zona litoral do Benin, na cidade que é a capital constitucional do país, Porto Novo (a cidade de Conotou, no entanto, é a sede do governo e a maior cidade do Benin). O Massê é dançado para mostrar as cenas domésticas cotidianas como as refeições e o divertimento. É uma dança amada pelas pessoas velhas.

Ao final da apresentação, os beninenses começaram a chamar o público para subir ao palco e dançar junto a eles. Nesse momento, os músicos, que estavam ao fundo, já haviam se juntado aos dançarinos no centro do palco. Depois da confraternização, o Embaixador do Benin no Brasil, Isidore Monsi, também juntou ao Towara Benin. Sucinto, porém emocionado pela presença de seus compatriotas, o embaixador, entre outras poucas palavras, falou: “Hoje eu não sou o Embaixador do Benin no Brasil, hoje o Towara Benin é quem cumpre esse papel”.

Encontro de Culturas

Além da apresentação no palco, o Towara Benin participou de diversas atividades durante o Encontro de Culturas. Sobre o evento, Marcel comentou: “Esse festival em São Jorge é muito enriquecedor porque permite a povos que não são muito conhecidos esse encontro e essa mistura. Ele me permitiu conversar sobre a diversidade das expressões culturais com a Giselle Dupin, do Ministério da Cultura no Brasil, que veio para o Encontro. Ele é um elemento fundamental hoje, sobre os quais os países em desenvolvimento devem se apoiar, para que eles possam ter um desenvolvimento durável”.

A respeito do que lhe chamou a atenção no Encontro, o presidente do Towara Benin acrescentou: “Durante este festival, também vimos bandas de música moderna, vimos exposições, vimos objetos de diversas nacionalidades, de diversos grupos étnicos do Brasil, do Benim e do outros lugares. Creio verdadeiramente que, através deste festival, toda a parte culinária também foi destacada e isso me permitiu enxergar toda a riqueza da gastronomia brasileira e de poder compará-la às outras gastronomias de outros lugares”.

E finalizou: “Pensamos totalmente que esse festival de São Jorge se inscreveu na caminhada dos homens até a paz, a mistura dos homens, e até a unidade do mundo. E somos orgulhosos disso e apoiamos este festival. Pedimos que esse festival se perpetue e seja multiplicado pelo Brasil todo, para que, verdadeiramente, o Brasil seja o berço da continuidade até o desenvolvimento cultural”.


Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, 2011. Foto: Anne Vilela

#ENCONTRODECULTURAS



Desenvolvido por CarlosFilho.com2004 - 2011. Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Um projeto da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e Asjor.

Fotos e matérias podem ser distribuídas desde que citados os créditos da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge e do fotógrafo.