Autenticidade

Cordas e percussão dão suporte ao canto alternativo

Sérgio Pererê mostrou sua cantoria original e voz potente na noite de encerramento do XII Encontro de Culturas
Stephani Echalar
Em 02/08/2012, 22:28


Sérgio Pererê no palco do XII Encontro de Culturas. Foto: Fredox Carvalho

Era noite de sábado, 28, e o músico mineiro Sérgio Pererê ocupou o palco do Encontro de Culturas após seu conterrâneo, Pereira da Viola. Mesmo que não fosse o objetivo, entrou imponente: negro, alto e magro, os cabelos curtos feitos em tranças guardados em uma espécie de lenço que decorava a cabeça e roupas que traziam heranças da cultura afro. A voz grave e forte, que contou com parcerias especiais ao longo da apresentação, deu ao público um show envolvente e emocionante.

Anos atrás, o cantor descobriu uma fenda em suas cordas vocais que o impediria de cantar. A partir daí, desenvolveu métodos que lhe permitissem continuar cantando. O resultado se deu em técnicas que lhe dão potência vocal sem grande desgaste das cordas. Com a ajuda de tais técnicas, Pererê encantou seus ouvintes. O cantor veio acompanhado de Daniel Guedes, responsável pelo toque da percussão. A apresentação, embora curta, mostrou variedade de sons – zabumba, talking drums, violão, charanga e outros instrumentos de percussão auxiliaram na musicalidade do show. 

O repertório de ritmo forte, com traços de religiosidade, envolveu os espectadores e animou o artista. Sérgio ficou satisfeito com o retorno da plateia e convidou a multidão a fazer coro em algumas músicas, ensinando refrãos. Em um dos grandes momentos, o cantor saiu do roteiro e convidou todos os que haviam participado de sua oficina, ministrada no dia anterior, a subir ao palco e cantar com ele. O grupo formou uma grande fila no tablado, a maioria recebeu um instrumento para tocar, outros se acomodaram mais perto dos microfones. 

A alegria de participar da ação transparecia nos sorrisos e dança compassada, dividida por todos. Para marcar a fase final da apresentação, Pererê brindou o público com a música Velhos de Coroa, envolvendo toda a multidão no coro e refrão. A fila de companheiros formada pelos participantes da oficina se uniu, então, em uma corrente de abraços. 

Nesse momento, o músico comentou a satisfação de participar do evento, o contato com os grupos de Congo e o encontro com Dona Dainda, personalidade quilombola da Comunidade Kalunga presente em São Jorge. Para o músico, a participação no Encontro foi uma grande experiência por proporcionar contato com ouvintes que consomem esse tipo de cultura. “Uma coisa é a arte e outra é o mercado da arte, quando essas coisas dialogam acontecem coisas incríveis, mas quando essas coisas não dialogam acontecem coisas terríveis. A gente vê que as pessoas estão carentes de coisas que a arte tem para oferecer, e a gente vê que tem um setor especializado em fazer com que isso não chegue para as pessoas”, completou o músico.

Em uma última cartada, Sérgio Pererê convidou ao palco o também mineiro Pereira da Viola e, juntos, protagonizaram uma parceria improvisada que Pererê definiu como “um momento nosso de trazer Minas, essa Minas negra que o mundo não conhece muito”. Fechando suas passagens pelo Encontro, eles cantaram juntos os versos “Senhora do Rosário, alembra de mim, alembra”, entoados pelo Terno de Fagundes no início da noite.

Canto alternativo

Durante sua passagem por São Jorge, Sérgio Pererê também ministrou uma oficina. O workshop de Canto Alternativo ocorreu na escola da Vila e levou cerca de vinte pessoas de volta à sala de aula. Na ocasião, Sérgio tentou passar aos visitantes um pouco das técnicas vocais que desenvolveu. 

Segundo o músico, a oficina “foca na utilização da voz de uma forma mais complexa, utilizar alguns recursos que a gente não usa naturalmente, e que são fáceis de usar”, o objetivo é mostrar às pessoas outras formas de cantar. “O canto, às vezes, é uma coisa cruel, às vezes te obriga a seguir alguns padrões, que se você não se enquadra, vai achar que tá errado, que não pode cantar. Uma oficina como esta ajuda a entender que talvez exista um jeito seu de cantar que pode ser muito bom”, explicou o cantor. 

Para tanto, o músico criou um método próprio. Através da associação com animais, o cantor ensinou aos participantes como controlar e usar órgãos ligados à voz e respiração. Para dar início ao aquecimento, os alunos tentaram imitar a maneira como os bois produzem o som. Em seguida, vieram outros animais, como cachorro e gato, cada um com um aspecto a ser analisado. Com as lições aprendidas, o grupo se organizou em um grande coral, trabalhando músicas apresentadas por Pererê. 

O resultado agradou tanto o mestre que desde então ficou combinada a participação no show, “eu fiquei muito impressionado com todos os alunos, não só por causa da musicalidade, mas com a capacidade de entrega de todo mundo, então eu senti que era importante a gente estar junto no palco” . No final da aula, sem se incomodar com o tempo, o cantor sentou todos os participantes em um círculo e ouviu suas dúvidas e comentários.

 

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