Encontro de Congos

Cultura que transpõe a distância, o tempo e o preconceito

Congadeiros de diferentes regiões se encontraram em um cortejo por toda a Vila, apresentando e representando uma tradição secular
Vanessa Martins e Vitor Santana
Em 03/08/2012, 17:39


Congos de Catalão e Fagundes se encontram em cortejo na Vila de São Jorge. Foto: Fredox Carvalho

O Encontro de Culturas Tradicionais não é apenas um espaço para que o público tenha contato com manifestações populares. Ele se constitui também como uma oportunidade dessas culturas se encontrarem e estabelecerem um diálogo, conhecendo as características e as histórias de outros grupos, de outras regiões. Nesse clima de interação, ternos de congo de Goiás, Minas e Mato Grosso saíram em cortejo pelas ruas da vila de ex-garimpeiros na tarde de sábado, 28.

Assistir à emoção passada pelos ternos de congo que encantam o evento é entrar em contato com o divino através das músicas em louvor aos santos. Congadeiros de Niquelândia (GO), Catalão (GO), Perdões (MG) e Nossa Senhora do Livramento (MT), se apresentaram ao público, mostrando uma tradição centenária que é passada ao longo de gerações.

Os tambores regem as batidas do coração e, os chocalhos, o ritmo dos pés. O canto dos congos é em devoção aos seus santos, mas sensibiliza até os mais céticos. Com diferentes batidas e histórias, a diversidade nas canções, ritmos e vestimentas tornaram o Encontro de Congadas uma das grandes atrações do XII Encontro de Culturas.

Os instrumentos, roupas e figuras religiosas de devoção variam de acordo com a região. Alguns homenageiam padroeiros da cidade de onde vieram. Outros grupos cantam e dançam para seus protetores. Uns são ternos de Vilão, outros de Penacho. Entre os que desfilaram por São Jorge, haviam também os de Moçambique e outros que não se encaixam nessas divisões.

A tradição nasceu entre os escravos, como forma de adorar os santos que os protegiam, já que não podiam ir à igreja e rezar como os brancos. A história teve início na senzala e hoje é admirada por pessoas de todas as cores, idades, culturas e religiões.

“A história diz que Nossa Senhora do Rosário apareceu em uma caverna e foi levada por um grupo de pessoas até a igreja. No outro dia, ela apareceu de novo no mesmo lugar e outros tentaram levá-la, mas ela retornou novamente. Quando os negros chegaram vestidos de branco, com latinhas amarradas nos pés e, com muita humildade, adoraram a santa no local onde ela surgiu e, só depois, a levaram para a igreja, aí sim ela ficou”, contou Leonardo Bueno, capitão do Terno de Congo de Moçambique Guardiões do Rosário, um dos grupos que participaram do Encontro, sobre o surgimento das congadas.

Fredox Carvalho
Terno de Congo Guardiões de Nossa Senhora do Rosário durante cortejo na Vila

Diferenças

A congada é composta de diferentes tipos de terno: Vilão, Catupé, Moçambique e Penacho. O de Moçambique, por exemplo, é o que leva a santa até a igreja em tom de procissão e cantos de lamentação. Nele, são usados, principalmente, os chocalhos, seja nas mãos ou presos ao tornozelo, e em alguns ternos, tambores. A batida dos pés, chacoalhando as pedras ou grãos dentro das latas, somada à imponência das batidas do tambor marca o ritmo dos cantos em tom de lamentação. Nesta edição do Encontro estavam presentes dois ternos de Moçambique: o Terno de Fagundes, capitaneado por do Seu Júlio Antônio, e os Guardiões do Rosário, regido por Leonardo.

Apesar de serem do mesmo tipo de terno, os grupos se mostraram muito diferentes. Enquanto o terno de Seu Julio trazia canções com tom mais melancólico, triste, em tom de lamento; o terno de Catalão apresentou uma batida forte e mais presente, com instrumentos mais carregados.

O terno Vilão é caracterizado por usar bastões que simbolizam espadas e representam a luta dos escravos pela libertação, como em uma guerra. Nesses ternos, as caixas são usadas como instrumentos principais e o ritmo é mais veloz e animado, acompanhado de coreografias com os bastões.

Claudio Pinto, capitão do Vilão Nossa Senhora do Rosário, que também participou desse momento de integração entre as congadas, contou que os ternos de Vilão tem um papel importante dentro da tradição. São os congadeiros desses ternos que abrem os cortejos, indo à frente durante toda a procissão com seus bastões e protegem os demais grupos, principalmente o Moçambique, que é sempre o responsável por levar a imagem de Nossa Senhora do Rosário.

O catupé, outra das divisões, traz uma dança dos escravos fugidos, chamados “custosos”, que os capitães do mato precisavam buscar. Nestes ternos, os membros dançam no chão, rolam e batem as costas na terra, tudo como parte da coreografia, representando esses escravos que fugiam.

Existem ainda os penachos, que levam penas na cabeça em lembrança dos índios que também sofreram com a escravidão e lutavam pela liberdade. Esses foram representados no Encontro pelo terno de Niquelândia. Como parte da farda estão as penas de ema no alto da cabeça, simbolizando os índios Avá-Canoeiro, que viviam na região da cidade. As vestes brancas, com saiotes vermelhos e fitas coloridas na cintura e uma faixa na cabeça, com medalhas dos santos de devoção completam o traje. Os instrumentos do grupo, assim como o ritmo, se diferenciam do Moçambique. Uma viola, reco-recos, tambores e uma pequena 'onça' formam a melodia que embala as adorações a Santa Efigênia.

A tradição contada pelos congadeiros diz que Efigênia era uma santa negra que foi escravizada e morreu em uma fogueira, após ter se recusado a casar com um príncipe. Hoje ela é padroeira da cidade de Niquelândia e santidade homenageada pelo congo.

Outro grupo que esteve presente no cortejo foi a Congada de Monte Alegre. Com vestes vermelhas, penas amarelas na cabeça e máscaras douradas, os congadeiros mostraram parte de sua festa no evento. Os festejos nessa cidade ocorrem no dia de nossa Senhora do Rosário, um dia antes da Festa do Divino.

Manuel Quirino, mais conhecido como Manezinho, puxa os cantos em adoração a Nossa Senhora do Rosário e toca a caixa, enquanto os demais respondem em coro e batem pequenos bastões de madeira, acompanhando o ritmo. Na tradição da cidade, também é realizada a caçada da rainha e do rei, levando-os até a igreja para rezas que encerram o festejo.

Anne Vilela
Congada de Monte Alegre apresenta a tradição da festa do Reinado

No dia anterior, junto com seu Júlio e seus companheiros, o terno de congo de Nossa Senhora do Livramento também ganhou as ruas, atraindo a atenção dos moradores e visitantes. Os devotos do Mato Grosso se dividiam em dois grupos, um trajado de vermelho, outro de azul. A separação recria uma guerra ainda da época do Brasil Colônia, entre o Congo, simbolizando os escravos vindos da África e o Monarca, encarnando os senhores de engenho, que utilizavam o trabalho braçal dos negros para a produção do açúcar, valioso produto comercial.

Com pandeiro e ganzá, os congadeiros saem pela cidade em devoção a São Benedito, São Gonçalo e Nossa Senhora do Rosário, entoando os cantos, alguns ainda nas línguas africanas. A tradição surgiu no quilombo de Mata Cavalo, no Mato Grosso do Sul, localidade culturalmente rica nas tradições afro, e que mantém os festejos ao longo das gerações.

Cortejo

Os ternos de congo saíram em cortejo pela Vila de São Jorge encantando a todos. Seguiram, juntos, em procissão até a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, onde cada um pôde usar o espaço para mostrar sua fé através dos cantos, danças, batida dos tambores e do farfalhar do chocalhos.

Os Guardiões do Rosário fizeram reverência a Dona Daínda, uma das lideranças da comunidade Kalunga, como “dona do terreiro”, levantando os bastões em respeito a ela. Também abençoaram o criador e coordenador geral do evento, Juliano Basso, e a própria Dona Daínda, envolvendo-os com os bastões.

Seu Júlio emocionou o público com os cantos tristes de louvor e lamento que ecoavam pela Casa de Cultura. Vestidos de forma muito simples, o terno conquistou os espectadores ao transmitir grande devoção na voz de seu capitão e nos chocalhos que embalavam as canções. Em contrapartida, o terno de Vilão mostrou sua dedicação com uma batida forte e rápida dos tambores. Os integrantes do terno vestiam um manto de fitas coloridas que dançavam no ar com o movimento rápido dos bastões, que subiam e desciam nas mãos dos congadeiros.

A diversidade dos instrumentos usados pelo Congo de Niquelândia chamou a atenção durante a apresentação do grupo. O grupo explorava diferentes formações na dança, enquanto louvava Santa Efigênia em seus cantos. Já a Congada de Monte Alegre fez uma apresentação louvando São Benedito e Nossa Senhora do Rosário na batida da caixa e acompanhamento dos bastões.

Saindo da Casa de Cultura, o terno de Moçambique regido por Leonardo Bueno foi até a igreja da cidade, onde prestaram homenagens a São Jorge e Nossa Senhora do Rosário. Dentro do santuário, também puxaram os cantos que falaram do sofrimento que os escravos passaram e que não lhes fizeram perder a fé.

Os curiosos admiradores acompanhavam tudo de fora da igreja, olhando pelas janelas, espantados com a emoção empregada nas vozes e ritmo do terno. Sem parar de cantar, o grupo se despediu dos santos sem dar as costas para o altar, o que é considerado por eles como falta de respeito. Saíram todos da igreja esperando, um dia, voltar.
 
Primeira vez

O Encontro dos Congos contou com a participação de dois grupos inéditos no evento em São Jorge. Mesmo com poucos anos de formação, os estreantes do Guardiões do Rosário e do Vilão Nossa Senhora do Rosário carregam nas batidas de seus pés e no ritmo de seus instrumentos, uma cultura centenária, influenciada pela triste realidade escrava.

Oriundos do município de Catalão, o Guardiões do Rosário foi criado há três anos pelo presidente do terno, Leonardo Bueno. As vestimentas são compostas de calças e tênis brancos, com camisas de cor lilás e faixas amarelas cruzadas no peito. Os capitães, que puxam o canto, carregam um cajado, que é considerado sagrado e não pode passar nas mãos de qualquer um. “Acreditamos que o capitão tenha uma força divina. É um ritual de origem africana que nós também preservamos”, contou Leonardo.

Antes de sair em procissão pela cidade, o grupo faz uma oração a Nossa Senhora do Rosário pedindo por bênçãos e proteção. As integrantes mais novas, à frente, carregam a bandeira do Terno e, em seguida, os capitães e tambores lideram os congadeiros com gungas (chocalhos de mão) e pantagongas (chocalhos amarrados nas pernas), todos entoando as preces, em forma de música, a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

A tradição na cidade já dura 135 anos. O presidente do grupo, Leonardo Bueno, conta que, em Catalão, o cortejo nas casas dura cerca de 15 dias, visitando até dez casas por dia. “Passamos nas casas de quem recebeu alguma graça, cantamos para eles, que agradecem oferecendo um lanche”, comenta. Além dos congadeiros, a festa apresenta personagens como o rei, a rainha, quatro príncipes e quatro princesas. Esses personagens são vitalícios e pertencem à família Rita, de Catalão. A festa mesmo, no entanto, acontece no segundo final de semana de outubro, quando se juntam 21 grupos de congada da região, unindo cerca de 4.500 dançadores. “Se vestem várias fardas, mas é uma santa que nos une”, completa Leonardo.

Anne Vilela
Vilão Nossa Senhora do Rosário abre caminho para o Terno de Fagundes

O Vilão de Nossa Senhora do Rosário foi outro grupo que participou pela primeira vez do Encontro de Culturas. Com apenas um ano de formação, os congadeiros estão retomando uma festa que ficou parada por aproximadamente quinze anos, após a morte do capitão dos congos. Seu Júlio Antônio é um dos responsáveis por retomar essa tradição, indo até a comunidade de Guarita, interior de Minas Gerais, levantando novamente a festa em louvor à santa. Isso se reflete na tamanha gratidão do capitão do Vilão, Cláudio Pinto.

Uma significativa parcela dos 20 integrantes que atualmente compõem o grupo é formada por jovens, o que demonstra um grande interesse em preservar a tradição por gerações e mais gerações. Sempre com a função de proteger Nossa Senhora do Rosário, os participantes seguiram à frente dos demais ternos com suas hastes, simbolizando espadas, e trajando roupas com longas fitas coloridas. Mesmo tendo origens africanas, as tiras multicoloridas têm inspiração nos saiotes indígenas, feitos com fibra vegetal.

Preconceito

Ao final do cortejo e das apresentações, Seu Júlio Antônio subiu ao palco empunhando a bandeira Nossa Senhora para rogar à sua santa protetora que abençoasse a todos os presentes, tocando seus corações. Após esse momento de emoção, que sensibilizou o público presente, o capitão de Fagundes contou sobre o preconceito vivido por ele e seus companheiros.

“Meu avô era um grande capitão de Moçambique, meus tios todos eram, meu pai também. E a gente tem uma tradição muito difícil, que a gente já passou por muito, muito preconceito dentro disso. Quando eu era menino, eu me lembro de uma vez que nós fomos com o nosso Moçambique a uma cidade e chegando lá eles mandaram nos prender, mandaram uns ‘bate pau’ correr atrás de nós. Eu era carregador de bandeira naquela época, eu tinha seis anos e eu tive que enrolar essa bandeira, correr e entrar debaixo da cama de um pessoal que eu nem sabia quem era”, contou Seu Júlio Antônio.

Fredox Carvalho
Capitão Júlio Antônio comanda o Terno de Fagundes

“Não sei por aqui, mas por lá, em alguns lugares, o pessoal falava que essa festa do Rosário era festa de negro, coisa de magia negra, de feitiçaria. Mas em nome de Nossa Senhora do Rosário nós viemos lutando até que hoje eu me sinto um vencedor, vencendo esse preconceito e hoje a gente está em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo carregando essa bandeira, dançando com meus ‘nêgo’ dentro da sociedade. É a coisa que mais me deixa emocionado, que me toca demais, é quando eu vejo a minha bandeira, os meus ‘nêgo’ dançando dentro da sociedade como a gente está aqui hoje. Só tem uma coisa que eu faço que é por meus joelhos no chão e agradecer a Nossa Senhora do Rosário”, concluiu o capitão sob os aplausos do público.

 

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