Opereta

A revolução sobe ao palco

O encanto que nasceu à noite do dia 27 de julho é parte do trabalho transformador de Doroty Marques com o as crianças da Turma que Faz
Mário Braz
Em 03/08/2012, 18:10


Apresentação da Opereta "O dia que nasceu a noite". Foto: Fredox Carvalho

Levando o Sol à noite da Vila de São Jorge, a Turma que Faz apresentou a Opereta O dia que nasceu a noite. Envolvendo mais de cem crianças da Vila e de Alto Paraíso, o projeto está há mais de seis anos desempenhando revoluções na vida de seus participantes. Mãe da realização, Doroty Marques cumpriu, este ano, a primeira Opereta sem seu irmão, Dércio Marques, falecido em junho último.

Nos dias que antecederam a data de 27 de julho, a Vila, e especialmente a Associação dos Moradores de São Jorge (Asjor), foram alvoroçadas pelas crianças da Turma, que entusiasmavam a região com seus batuques e performances. Durante os ensaios, a voz rouca e forte de Doroty podia ser ouvida aos berros em frases de repreensão ou mesmo nas mais leves e carinhosas expressões de incentivo.

Ao passar dos dias, as estruturas cenográficas começaram a fazer parte do cenário da Vila. Organismos grandiosos foram paridos da palha, papel maché, tecido e muita tinta. A grande cabeleira branca de Doroty desfilava por entre as dezenas de crianças distribuindo lições musicais, rítmicas, corporais, cênicas e de vida. Para os olhares externos, a rudeza da mulher dona dos célebres cabelos brancos pode soar ferina, no entanto, basta uma observação um pouco mais demorada para perceber todo o amor que se esconde nas rugas de Doroty. É unânime o grato sentimento que todas as crianças têm por ela.

Nos bastidores, começa a correria. A noite do dia 27 espera, soberba, a passagem de todas as crianças pelo palco. O apertado camarim – para o numerário de atores mirins – fica tomado por algazarra e tensão pré-apresentação. Pequenos índios, africanos, corpos celestes e adereços habitam com ansiedade o espaço da concentração. No palco, vestida com propriedade, a contadora de histórias e arte-educadora, Nani Braun, apresenta ao público a Opereta O dia que nasceu a noite, uma das programações mais aguardadas de todo o Encontro.

Sobe ao palco um sol imperioso, que, sem descanso nas noites, leva luz e calor excessivos à Terra carente de Ozônio. É a lenda indígena contada pela Turma que Faz. Não há mais noite; e um grupo de três guerreiros indígenas sai pelo mundo à procura de uma solução para os dias de sol eterno. Pelo caminho interagem com as comunidades mais distintas, que, apoiando os três corajosos índios dão a eles proteção e ensinam lições grandiosas. A sensibilidade é espalhada a toda a audiência, que aguarda, irrequieta, o desfecho da história, interagindo com as canções executadas pela Turma. Faz parte da apresentação o violeiro Noel Andrade, amigo e discípulo dos irmãos Marques.

Ao fim da busca, Pai da Mata, guardião do pote mágico, entrega aos guerreiros a saída para acabar com os dias sem noite. Os três, aflitos de curiosidade, e na luta para restabelecer a harmonia na Terra, abrem o pote imaturamente, libertando, assim, a noite sem fim. O domínio da Lua e da escuridão recai sobre o planeta.

O grito pela Cobra Grande surge como saída à perenidade dos turnos do dia. Tochas abrem caminho ao grande réptil ofídio que surge no meio do público. O espetáculo está ali, ao lado do espectador. A dança da Cobra Grande deixa todos vidrados à espera de uma solução ao caos instalado na Terra.

Na ansiedade por uma resposta positiva ao grito de socorro, a Cobra nega seu auxílio, e justifica ter ajudado diversas vezes a humanidade, que perdeu todas as oportunidades de estabelecer um mundo harmônico. Passando por cima do desespero, a grande Guia indígena clama a todos os guerreiros infantis a se unirem e transformarem o mundo, assim Dia e Noite, Sol e Lua voltam a coexistir dentro do espaço-tempo de 24 horas. A cada presente, cai a consciência ambiental e moral mais pura, que só a Opereta da Turma que Faz pode proporcionar, e é para toda a vida.

Anne Vilela
Na opereta, os guerreiros mirins carregam a missão de salvar o planeta

Visita

A presença de Nani Braun na Vila de São Jorge e na Opereta não teve como justificativa, exclusivamente a participação no Encontro. Vinte anos separavam o contato da amizade com os irmãos Marques. Após a notícia do falecimento de Dércio, Nani cruzou meio país para rever Doroty. A relação que teve início aos dezenove anos de Nani nunca foi apagada. Nos olhos a emoção que aconselhava ouvidos repórteres, “as amizades e os verdadeiros amores ficam para sempre”.

“A Turma que Faz é uma ligação de vida”, a voz rouca de Doroty descrevia exemplos de cada laço de afeto feito por todos os cantos do país nesses quarenta anos de percurso, que têm como finalidade revolucionar a vida de todos que passam e passaram por Doroty e Dércio, trabalho de quem “assume com as crianças uma responsabilidade de vida”.

 

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