Balanço

Encontro de tradições

Durante nove dias, o XII Encontro de Culturas transformou a Vila de São Jorge em um palco a céu aberto, por onde passaram comunidades tradicionais, povos indígenas, músicos, artistas, moradores e turistas, num encontro marcado por diálogos e vivências
Giovanna Beltrão
Em 04/08/2012, 19:50


Figura marcante do Encontro de Culturas, o Capitão Júlio Antônio é responsável por manter viva a tradição das congadas no vilarejo mineiro de Fagundes. Foto: Anne Vilela

O XII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros chega ao fim como um novo marco nesta história de doze anos em busca da construção de um espaço no qual a cultura popular e tradicional pudesse ser vista como protagonista ativa da realidade brasileira. Uma das palavras que resume esta décima segunda edição é superação. No ano passado, voltamos às origens do evento, com o palco instalado à frente da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, sede do primeiro Encontro. Este ano, inovamos, com o palco montado em frente à Praça Central da Vila.

Desta vez, as atividades foram divididas, simultaneamente, entre dois espaços: a Aldeia Multiétnica e a Vila de São Jorge. O Encontro tomou lugar no coração da Vila, no cruzamento de quatro ruas. E a Praça abrigou a Feira de Oportunidades Sustentáveis, outra ação bem sucedida do evento. Também este ano, pudemos saborear o sucesso do novo modelo da Aldeia, iniciado no ano passado, com a construção da oca xinguana dos Yawalapiti. Na VI Aldeia Multiétnica, os índios Kayapó foram os responsáveis por comandar a festa, deixando no local um exemplar de sua casa tradicional.

Pela Aldeia, passaram mais de dez etnias. Krahô, Fulni-ô, Guarani, Dessana, Xavante, Yawanawá, Kariri-Xocó, os equatorianos Avatalo, além dos Yawalapiti e dos Kayapó. Alguns grupos vieram em grandes comitivas, com mais de 80 indivíduos; outros vieram com uma representação solitária, mas, nem por isso, menos importante. Todas puderam mostrar seus cantos, danças e rituais. E, o mais importante, todos tiveram voz ativa durante os debates, oficinas e rodas de prosa realizadas.

Enquanto a Aldeia ganhava a casa Kayapó, a Vila ganhava novas cores. O projeto de intervenção artística, desenvolvido pelo artista plástico Mateus Dutra, deu cara nova ao vilarejo de ex-garimpeiros. Junto a Mateus, estavam Fabíola Morais e Wés, que pintaram muros e paredes com cores variadas e desenhos que mostravam apego à cultura popular. Os artistas locais Marcos Brasil, Cris Maia e Moacir Farias também deram suas contribuições. Outra intervenção trazida foi a performance de dança e projeções gráficas Perfume para Argamassa, de Kleber Damaso e Viviane Domingues.

Encontros do Encontro

O XII Encontro foi responsável por sedimentar outros encontros importantes. Oficiais ou não, estas reuniões estabeleceram novos parâmetros para o evento que, ao longo de doze anos, se tornou referência no fomento e busca de políticas públicas voltadas às comunidades tradicionais.

Além da Aldeia, tivemos o Encontro de Lideranças Quilombolas de Goiás, que reuniu cerca de 15 comunidades goianas e promoveu o encontro da Comunidade Kalunga com o bloco de carnaval Ilê Aiyê. Os Diálogos Interculturais sobre a Água colocaram em voga o ponto de vista dos grupos tradicionais que vivem às margens da bacia do rio Prata, e trouxeram ao palco a performance Água Viva, de Larissa Malty e Vavá Cunha.  O V Encontro de Capoeira Angola encerrou o evento mostrando a importância da cultura afrodescendente para os povos da região da Chapada dos Veadeiros.

O segundo Encontro de Violeiros “A reuni” homenageou o grande violeiro Dércio Marques, forte incentivador do Encontro de Culturas e do projeto Turma Que Faz, encabeçado por sua irmã, Doroty Marques. Mestre e amigo de muitos músicos pelo Brasil, Dércio faleceu cerca de um mês antes do início do evento. Como homenagem, recebeu o canto emocionado de nove violeiros que, liderados por Doroty, foram responsáveis por um dos momentos mais marcantes desta décima segunda edição.

Doroty Marques comandou ainda a apresentação da Opereta O dia que nasceu a noite, desenvolvida e apresentada pelas crianças e adolescentes do projeto Turma Que Faz, criado pela musicista e arte-educadora mineira. A peça apropriou-se de uma lenda indígena para retratar os problemas ambientais que assolam o planeta, como o aquecimento global e a destruição da camada de ozônio.

O Encontro de Congadas, mais uma vez, tomou as ruas de São Jorge no último dia de evento. O Terno de Fagundes, do Capitão Júlio Antônio fez muito corações acelerarem com a batida forte e cadenciada do Moçambique mineiro. Na noite de sexta, Seu Júlio saiu às ruas da Vila, junto ao Congo de Livramento, no Mato Grosso, para dar as primeiras bênçãos ao povo de São Jorge. O Congo de Niquelândia, com seus saiotes e penachos, também mostrou sua tradição, embalada pela viola e pelos ganzás.

O pequeno grupo do Congo de Monte Alegre retornou a São Jorge para mostrar sua dança, que integra a festa do Reinado, realizada todo dia 23 de julho. Por fim, os Guardiões de Nossa Senhora do Rosário, de Catalão, fizeram sua estreia no Encontro de Culturas. Os congadeiros, comandados por Leonardo Bueno e vestidos em branco, amarelo e lilás, trouxeram para a Vila o Moçambique goiano e a batida forte e imponente característica da cidade interiorana.

Para o encerramento, as apresentações dos mineiros Sérgio Pererê e Pereira da Viola - que também homenageou Dércio Marques e, ainda, o Capitão Júlio Antônio -, e os pernambucanos do Bongar, com o coco do Quilombo da Xambá, mantiveram o público animado e entretido até os últimos momentos. Para encerrar a noite, o samba do grupo brasiliense Filhos de Dona Maria tomou conta da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge.

Balanço

Durante nove dias, passaram pelo palco do Encontro de Culturas, artistas e grupos de diferentes manifestações e variadas origens. Goiás, Distrito Federal, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Tocantins, Mato Grosso, Pernambuco e Chile foram representados por ritmos como catira, coco, samba, siriri, fandango, embolada, forró, viola e cueca. Entre os grupos tradicionais, pudemos acompanhar o Império e a sussa Kalunga, a batida da “onça” da Caçada da Rainha e os tambores dos Ternos de Congo.

Foram mais de 40 atrações em cima do palco, mais de 500 artistas entre indígenas, grupos musicais, cantores e mestres de cultura popular. Cerca de dez reuniões e rodas de prosa e mais de 20 oficinas e workshops divididos entre a Aldeia e a Vila. No site, foram mais de 92 mil acessos e quase 80 notícias produzidas. Mais de 140 mil pessoas foram alcançadas via Facebook, com 1.264 novos fãs adquiridos no período do evento. E 12 mil fotos oficiais passam a integrar o banco de dados de cultura popular e tradicional do Encontro de Culturas.

Chegamos ao final de mais um Encontro com a sensação de dever cumprido e de alegria por termos proporcionado, às comunidades e ao público, momentos memoráveis. Momentos que ficam transparecidos nas palavras do criador do evento, Juliano Basso, que em ocasião anterior ao início oficial desta edição, comentou: “O Encontro não é um festival, é um ‘encontro’, um espaço para que as pessoas se encontrem”.

E foi isso que aconteceu em São Jorge entre os dias 20 e 28 de julho. Pessoas se encontraram, se conheceram e se reconheceram em povos e histórias que lhe pareciam distantes. É com este sentimento que já começamos a pensar no próximo Encontro, desejando que seja outro Encontro de encontros.  E que venha 2013!

 

 

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