Percussão

O ritmo percussivo do Brasil

Durante o Encontro de Culturas foram realizadas diversas oficinas de percussão que manifestaram a pluralidade da música brasileira
Marcela Borges
Em 01/08/2013, 21:43


Oficina de Pandeiro Popular. Foto: Anne Vilela

”E que som do pandeiro
É certeiro e tem direção
Já que subi nesse ringue
E o país do swing
É o país da contradição...

Eu canto pro rei da levada
Na lei da embolada
Na língua da percussão
A dança mugango dengo
A ginga do mamolengo
Charme dessa nação..”

Jack Soul Brasileiro – Lenine

É esse swing, esse samba dos pandeiros, o ronco da onça, a pisada do coco, a bateria dos tambores que atraem pessoas de todos os cantos do Brasil e do mundo. Todos querem sentir a vibração do compasso correr pela pele e evocar o ritmo do corpo que irrompe instintivamente.  

É essa pluralidade de ritmos e sensações que instigam as pessoas a passarem por São Jorge durante o Encontro de Culturas. Para imergir na cadência das culturas e encontrar novos sons. “Aqui, conforme você vai vivenciando, cada segundo é uma influência e uma nova e grande experiência”, revelou o produtor Christian Lohr que foi ao Encontro especialmente para buscar e capturar novas sonoridades para o novo álbum da cantora curitibana Raíssa Fayet. Christian ficou impressionado com os diferentes toques dos instrumentos de percussão, com a “vibe” da Capoeira Angola.

Outro caso de peregrinação por sonoridades peculiares na Chapada dos Veadeiros é o caso do argentino Dário Ezequiel. Artesão e músico, Dário procura novos ritmos e para alcançar esse objetivo ele freqüentou várias oficinas de percussão realizadas durante o Encontro. “Estava aprendendo a tocar percussão africana em Buenos Aires. Agora quero aprender outros ritmos, como a percussão afro-brasileira e os ritmos do Brasil como choro e samba”, explicou.

O artesão Fábio de Lima Nogueira também ressaltou o caráter da pluralidade brasileira: “é muito importante essa troca de experiências, todas essas vivências mostrando o tanto que nosso país é rico de cultura. Principalmente, mostrando para o sul e sudeste como valorizar a cultura, porque muita cultura o povo nordestino tem pra ensinar para a gente (sic)”.

Pensando nessas pessoas e na troca de experiências, o Encontro de Culturas realizou diversas oficinas musicais com enfoque na percussão:

Pandeiro Popular e Percussão Corporal, com Alexandre Lemos

Os dedos sambam no couro do pandeiro e cintilam os metais da pratinela, toda a eletricidade transcorre pelo corpo e a última coisa que se consegue é ficar imóvel. Assim, começou a oficina de Alexandre Lemos; tirando uma casquinha do pandeiro. A universalidade musical estava presente na sala. Pessoas de toda parte do Brasil: São Paulo, Goiânia, Belo Horizonte, Buenos Aires... Estavam juntos, unidos por uma cultura em comum, o pandeiro. Mas na oficina, eles tiveram algo a mais: “a ideia é juntar percussão corporal com pandeiro. Estudar o pandeiro a partir da sonoridade do próprio corpo e a gente pode fazer isso através de algumas brincadeiras, jogos, improvisos rítmicos até chegarmos ao pandeiro”, revelou Alexandre no início da oficina.

Logo Alexandre fez todo mundo mexer as mãos, os pés, bater no peito e nos joelhos para cada um descobrir o som do próprio corpo ou descobrir a capacidade que o corpo tem para fazer música. Cada extensão do corpo tem a variedade de agudo ao grave, existem partes que vibram, partes que oscilam, mas tudo é som, tudo pode ser música. Foi uma atividade intensa e que rendeu boas risadas, a percussão saía até da sonoridade dos nomes dos participantes.  “Eu tive um ótimo momento. E eu achei ótimo para todo mundo se abrir totalmente”, compartilhou Christian Lohr que também apareceu para o início da oficina.

A percussionista Tainá Silva se encantou com o método: “Pensei que ele só iria passar umas técnicas de pandeiro e fazer uma integração com a percussão corporal, mas não achei que ele fosse aprofundar tanto nesta parte. Essas dinâmicas de percussão corporal foram bastante eficientes, elas ajudam a gente a incorporar o ritmo e depois passar para o instrumento”.

Quando todos já estavam fervendo de calor e ritmo, Alexandre passou para o pandeiro e foi quando os participantes puderam tirar suas dúvidas e aplicar na prática todos os exercícios de percussão corporal do início da oficina.

Música Sustentável, com Boca do Lixo
A oficina do Projeto Boca do Lixo, realizada na terça-feira (23), mostrou que os ritmos não precisam sair de instrumentos convencionais. Com um pouco de criatividade, diferentes superfícies podem exprimir sons iguais aos tambores e ganzás comprados nas lojas de música. É isso que Zeck, um dos integrantes do projeto e quem liderou a oficina, ensinou aos participantes: como é possível reaproveitar uma lata de alumínio e miçangas para criar um ganzá sustentável ou uma baqueta utilizando cabo de vassoura e câmara de ar. No projeto Boca do Lixo eles encontram uma solução de reaproveitamento para vários materiais e mesmo depois que estão gastos, o grupo envia tudo para a reciclagem. Meio ambiente é um dos principais focos desse projeto e por isso o grupo quis passar um pouco dessa ideia para quem participou da oficina.

Muitos participantes foram atraídos pelo batuque inicial que o grupo fez no pátio do Espaço Seu Tilú. Não dava pra ignorar o ritmo da percussão, o bater dos tambores... Muitas pessoas chegaram curiosas para saber o que esse grupo tinha a dizer. O objetivo do grupo era falar um pouco sobre instrumentos sustentáveis e ensinar o Coco Boca, um ritmo criado por eles mesmos a partir de ritmos regionais. Algo simples que todos tiveram facilidade em tocar.

A maioria tocava tambor, mas não é só disso que o Coco Boca é feito, então algumas pessoas deixaram as baquetas de lado para assumir os ganzás. No fim da manhã, todos saíam ao redor do Espaço Seu Tilú para desfilar uma previa do que viria no dia seguinte: um cortejo de todo o grupo da oficina pela avenida principal de São Jorge.

Percussão Corporal, com Marcelo Pretto

Uma das grandes atrações para o público do Encontro de Culturas foi o cantor autodidata, ator e arte-educador Marcelo Pretto, que conquistou grande parte dos participantes da sua oficina no show do Ponto Br, em que fez uma participação especial. Marcelo deixou a plateia boquiaberta com os ritmos que ele exprimia do próprio corpo, ele apresentou para quem não conhecia e surpreendeu quem já tinha visto, a percussão corporal.

 

Oficina de Percussão Corporal / Foto: Delcio Gonçalves

Na oficina, a sala estava lotada a ponto de terem que pedir para quem chegou tarde assistir apenas pela porta. Marcelo começou os exercícios em uma roda grande, era essencial que os participantes vissem cada um que estava lá, porque o primeiro exercício de percussão corporal tinha como base a comunicação corporal. Todos pegaram o ritmo rápido, Marcelo ficou surpreso com o ritmo do grupo e pouco a pouco ia “aprimorando” o exercício. As atividades inquietavam as pessoas a quererem liberar seu ritmo para aquele ambiente, além da troca de experiência, aquela oficina foi uma troca de energia.

A influência não foi apenas na oficina, para Marcelo a Chapada dos Veadeiros também teve a força de influenciá-lo: “Ontem fui a uma cachoeira deslumbrante e tudo isso muda sua vida. E como muda... Ficou mais alegre, acredito mais na vida e (consequentemente) na percussão também”.

Ronco da Onça, com Seu Zé Nilo da Caçada da Rainha

 Entre as oficinas de percussão não poderia faltar um instrumento típico da região da Chapada dos Veadeiros, o Ronco da Onça. Basicamente um tambor feito de couro e madeira de árvores do cerrado do tipo “mijadeira”, que produz dois tipos de sons ao mesmo tempo. Enquanto em uma extremidade, um percussionista toca o tambor com as baquetas na outra, uma pessoa fricciona, com a mão molhada, uma haste (simbolicamente como se fosse o rabo da onça) ligada ao couro do tambor e a partir desse ato, o tambor emite um ronco semelhante ao da onça.

Seu Zé Nilo explicou que este é o principal instrumento usado no Batuque da Rainha, uma das manifestações da Caçada da Rainha em que as mulheres dançam ao ritmo do ronco.  E apenas as Caçadas de Colinas do Sul e Cavalcante que utilizam o instrumento.

A oficina era mais para as pessoas se familiarizarem com a peculiaridade do instrumento. Primeiro Seu Zé Nilo mostrou como fazia e então convidou um por um de quem assistia para experimentar o rabo da onça. Quem arriscou, disse que o segredo era friccionar bem forte a haste, caso contrário o som saía fraco. Para acompanhar o Ronco da Onça, seu Zé Nilo puxou as cantorias do Batuque da Rainha para todos cantarem juntos. Nessa oficina, teve música, canto e até quem dançasse.

 

 

A Vila de São Jorge