19 de julho a 02 de agosto de 2014

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Cultura

A dedicação de Seu Júlio Antônio para manter vivo o Terno de Moçambique

Seu Júlio ainda é forte e tem muito vigor, mas ainda não tem sucessores na família para continuar a tradição familiar do Terno de Moçambique de Perdões. Para Seu Júlio esse é o maior desafio.
Narelly Batista
Em 05/08/2014, 16:35


Seu Júlio Antônio na chegada do Terno de Moçambique à Vila de São Jorge. Foto: Fábio Luiz

- Seu Júlio está chegando pessoal. Precisamos nos organizar para não perdê-lo de vista.

- Mas como será o trajeto do Congo?  

-Não tenho certeza. Nunca temos na verdade. É preciso atenção. Anotem tudo, peguem tudo que achar importante.  O Congo é um belíssimo ritual, porém cheio de detalhes que não podemos perder.

Pacientemente peguei o bloquinho de notas e uma caneta e me encaminhei para frente da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge antes que o ônibus que trazia o Congo de Fagundes chegasse. Lá estava ele, Seu Júlio. Com a roupa branca, um apito preso em uma corrente envolta a seu pescoço, terno marfim, descia do ônibus usando seu tradicional bastão como apoio para descer os últimos degraus do ônibus. Um olhar desconfiado, um sorriso de canto e uma expressão sisuda.

Quando me aproximo dele e peço uns minutinhos de seu tempo para a entrevista e ele diz: - Até posso dar a entrevista. Mas antes você precisa entrevistar aquela moça ali do Congo que eu trouxe comigo.

Seu Júlio Antônio tem 74 anos e é uma dessas pessoas que ao longo da vida adquiriram grande sabedoria sobre as pessoas, sobre si e sua identidade. Condicionando minha entrevista ao espaço para sua sobrinha percebo em Seu Júlio uma nobre preocupação. Garantir a tradição viva e com amplo espaço nas mídias possíveis. Tranquilo, resolveu fugir um pouquinho do grande número de pessoas que queriam alguns minutinhos com ele e me cedeu a entrevista.

Com seis anos ele já participava do Congo, juntamento com seu pai e tios. Em sua família a tradição não é só uma demonstração de fé, mas de manutenção da história familiar iniciada com seu avô Antônio Joaquim de Oliveira, há 180 anos atrás. Seu Júlio herdou a tradição do avô que chegou ao Brasil como escravo aos oito anos de idade e foi utilizado por uma fazendeira da região para cumprir a função de feitor quando completou a idade necessária para a tarefa.

Na senzala todos temiam o avô de seu Júlio, mas no fundo, havia no senhor uma dor enorme. Ele também era escravo e cumpria ordens. Em uma noite, enquanto caminhava próximo a uma senzala em noite de lua cheia, ouviu uma cantoria. Sob uma árvore, dois negros cantavam em dueto. Seu Antônio parou para apreciar. Tentava se aproximar. Quando os negros perceberam o risco que os rondava, fugiram. Antônio voltou a procurá-los. Precisava de alguma maneira se redimir da função que deu sentido a sua existência na casa da fazendeira que lhe criou.

O tempo passou e Antônio conseguiu se aproximar daqueles que festejavam a vida. Envolveu-se com os sons de sua raça, e entendeu-se como agente da fé. A partir daquele dia, os escravos passaram a dançar na casa de Antônio todos os dias. Estavam enfim, protegidos. A festa deu luz ao Terno de Moçambique. A partir desta história familiar Seu Júlio Antônio também adquiriu o gosto pela atividade. Aprendeu com os tios e o pai a importância de manter viva a tradição. Hoje com 16 pessoas no Congo, Seu Júlio capitaneia o grupo e mantém suas raízes. Entretanto, hora ou outra, durante a entrevista, abaixa a cabeça e se entristece.

Ao questionarmos o motivo Seu Júlio explica que o Terno que tem mais de 180 anos está chegando ao fim. O Terno de Moçambique de Fagundes é um grupo familiar que foi mantido pela família de seu Avô Antônio. Na família de Seu Júlio seus dois filhos que poderiam estar a frente da atividade não demonstraram interesse. Os netos nem entendem bem o intuito da atividade do avô. Para eles assim como para muitos outros jovens “as coisas passam, criamos novas tradições”. Mas será?  Seu Júlio ainda é forte e tem muito vigor, mas precisa fazer sucessores na família. Para Seu Júlio esse é o maior desafio.

“Nem sei o que pensar. Fico chateado. Deve que vai acabar comigo. Mas, não quero que seja assim”, lamenta Seu Júlio.

Seu Júlio é o que podemos chamar de Mestre da Cultura Tradicional. Divulga, ensina, garante a continuidade de uma tradição familiar. Mas este ano Seu Júlio não parece estar confortável. Tem sentido medo. O mesmo medo que outros mestres tem de ter aquilo que lhes dá sentido a vida ser esquecido, sua cultura.  

 

A Vila de São Jorge




Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros é um projeto da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge.
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