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CINEMA VERDADE

"Tempo de Kuarup": documentário exibido no XVI Encontro de Culturas revela detalhes do rito Kuarup numa aldeia Yawalapiti

Conheça mais sobre o ritual Kuarup, cerimônia em homenagem aos mortos, em uma aldeia Yawalapiti no Alto Xingu, atravé do documentário de Neto Borges, exibido durante o XVI ECTCV
Eduardo Carli de Moraes
Em 15/08/2016, 21:32


Os Yawalapiti, do Alto Xingu, participando da X Aldeia Multiétnica, em Julho de 2016. Foto: Mariana Florêncio

Com direção e roteiro de Neto Borges, patrocínio do MinC (Ministério da Cultura) e do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o documentário “Tempo de Kuarup” é uma produção da Olho Filmes e foi realizada por uma parceria da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, do instituto Darcy Ribeiro e da AWAPÁ – Associação Yawalapiti. O documentário foi uma das atrações do cineclube que integra a programação do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros e foi exibido, para deslumbre do público, na noite desta quarta-feira, 27 de Julho de 2016. (Assista ao trailer oficial.)

É através do Kuarup, ritual sagrado praticado pelos povos do alto Xingu, que os viventes despedem-se de seus mortos ilustres. “Após o falecimento de um líder notório”, explica o doc, “a comunidade discute a pertinência de realizar o ritual.” Ao manter acesa a chama do Kuarup, honram os costumes dos antigos e expressam uma mitologia própria (saiba mais). Tradições milenares são assim preservadas e perpetuadas, ainda que elementos estranhos e hostis – como projetos hidrelétricos e sua procissão de devastações e etnocídios – rondem, como uma ameaça palpável, essas tribos ancestrais e suas celebrações.

Kuarup é o nome de uma das árvores da floresta que marca presença no ritual sob a forma de três troncos, representativos dos entes queridos que morreram. Os troncos são decorados e pintados pelos Yawalapiti em seus preparativos para uma grande congregação onde recebem na aldeia os convidados de várias outras etnias. Os preparativos para a cerimônia são longos e envolvem os cuidados culinários: a pescaria de uma fartura de peixes, a serem servidos aos convivas, e a preparação de alimentos à base de polvilho e pequi, dentre outros ingredientes. Tudo minuciosamente preparado para a consumação de um Encontrão de tribos durante as festividades Kuarupianas (em 2016, eles até mesmo incluíram uma alfinetada no traíra usurpador e teve #ForaTemer berrado pela pele).

A música e a dança são elementos essenciais para o bom andamento do ritual. A música é produzida tanto por chocalhos e maracás, que produzem a percussão e instituem um consenso rítmico, quanto por imensas “flautas” que, de acordo com Aritana Yawalapiti, tem por dono “o espírito da raiz”. Através dos sons, das danças, das pinturas corporais, dos movimentos  coreografados, o filme revela alguns ricos vislumbres da cultura xinguana, dotada de gramática rítmica própria e que expressa toda uma cosmologia, com seus mitos de origem e suas narrativas sobre a vida e a morte, a finitude e a eternidade.

O filme também é eficaz ao fazer a denúncia, sem nenhum panfletarismo ou demagogia, das devastações acarretadas por madeireiras e monoculturas, que vão invadindo e matando a mata, devastando a diversidade sociocultural e aniquilando a biodiversidade de fauna e flora. Revela também a discordância do povo Yawalapiti em relação às barragens hidrelétricas que estão sendo construídas e planejadas para a região do Xingu, devastadores projetos como Belo Monte, obras megalomaníacas que são terríveis para o equilíbrio do ecosistema todo no qual vivem a milênios os povos originários. Não são só os seres humanos que ali (re)existem que estão sendo tratorados pelo Brasil Grande das nossas elites, ecocidas, genocidas, golpistas; a Natureza sofre junto, colapsam seus equilíbrios, por exemplo nos peixes impedidos de realizar sua piracema.

“Tempo de Kuarup” é prova viva da potência do cinema-verdade para agir como expansor de horizontes. A câmera como janela que permite-nos aprender sobre perspectivas alternativas, modos-de-viver de múltiplas outras alteridades, permitindo um contato possível com culturas de densa ancestralidade. E que perpetuam a duras penas a beleza e a força de seus ritos e práticas em tempos sombrios de devastação institucionalizada. É um dos documentários essenciais para quem quer entrar em contato – ainda que mediado pelo audiovisual, o que não dispensa ninguém de outros modos de mais imediata e radicalvivência de interação – com a vivacidade da tradição xinguana, que vive e resiste em rituais como o Kuarup. É todo o cotidiano existencial e arranjo político da aldeia Yawalapiti que encontra no filme um retrato à altura de sua beleza e complexidade.

SAIBA MAIS

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SERRAS DA DESORDEM, de Andrea Tonnacci
*  RAONI (1978), de Jean-Pierre Dutilleux e Luiz Carlos Saldanha
* ÍNDIO CIDADÃO?, de Rodrigo Siqueira
A GUERRA DE PACIFICAÇÃO DA AMAZÔNIA, de Yves Billon
MUNDURUKANIA - NA BEIRA DA HISTÓRIA, de Miguel Castro

P.S. Vale lembrar que Kuarup é também o nome de um filme brasileiro lançado em 1989, dirigido por Ruy Guerra e baseado em obra de Antônio Callado, cuja narrativa se passa no Parque Indígena do Xingu. O recente filme Xingu (2011), de Cao Hamburger, oferece uma reconstrução narrativa, altamente cinematográfica, da trajetória dos irmãos Villas-Bôas. Ambos filmes, apesar de serem obras ficcionais ou "biopics", abrem janelas para o concreto da História real em que se inspiram.

 

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LEITURA SUGERIDA:

FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michael (orgs.). 2001. Os Povos do Alto Xingu: História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 496 pp.
FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michael (orgs.). 2001. Os Povos do Alto Xingu: História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 496 pp. Saiba mais.


 

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