17 de julho a 01 de agosto de 2015

vila de são jorge . alto paraíso de goiás

A comunicação que queremos

Um súplica de amor de Sinvaline Pinheiro

Nos olhos de Sinvaline, o brilho de quem viu na vida detalhes que não são (nem podem ser) contados pelos importantes e pomposos jornalistas de grandes revistas. Pelo menos não com a mesma familiaridade, carinho e precisão
Narelly Batista
Em 08/08/2016, 22:29


Sinvaline Pinheiro e Axuapó conversam durante X Aldeia Multiétnica. Foto: Rubens Leite

Quando Juliano George Basso conheceu Sinvaline, teve certeza: “Não havia pessoa mais gabaritada para falar sobre a história do Encontro de Culturas que aquela mulher”.

Sinvaline Pinheiro é exatamente o que poderíamos chamar de mestre da comunicação popular. Teimosa, curiosa e sonhadora, Sinva, como é chamada pelos mais próximos, formou-se em comunicação na Escola do Mundo. Essa em que não há leads ou formatos precisos o bastante para se reportar a grandeza das boas e más ações do homem.

Depois de pensar um pouco, aceitou o convite e passou a integrar a equipe de comunicação do Encontro de Culturas, que todos os anos realiza uma cobertura ininterrupta das atividades do evento. Desde então deixa a segunda quinzena de julho livre e vem da cidade de Uruaçu com sua fiel neta, Vitória - que começou a acompanhá-la ainda pequenina -, para falar com rezadeiras, benzedeiras, quilombolas, batuqueiras, artistas, pessoas simples e autoridades, na busca por uma comunicação verdadeiramente social. 

Nos olhos de Sinvaline, o brilho de quem viu na vida detalhes que não são (nem podem ser) contados pelos importantes e pomposos jornalistas de grandes revistas. Pelo menos não com a mesma familiaridade, carinho e precisão. Isto porque a inspiração de Sinvaline não poderia jamais ser uniformizada com as lições da universidade. Emocionada, ela relembrou o momento em que foi convidada a escrever para o Encontro de Culturas.

“Eu, semi-analfabeta, que nem ao ginásio cheguei, tive a honra de poder contar histórias lindas e duras de pessoas tão importantes. Este Encontro é a história da minha vida e também do meu trabalho”.

Sinvaline não chegou a fazer uma graduação, mas tem em seus textos exatamente o que precisávamos: a pureza de uma escrita transformadora. Essa pureza que a universidade não é capaz de ensinar e métodos descritivos básicos não são suficientes. Nos mais de dez anos de colaboração, Sinvaline reportou uma série de personagens e histórias no site do Encontro de Culturas e em seus livros.

Seu faro jornalístico garantiu que documentos importantes sobre a construção, ocupação e demarcação das cidades de Uruaçu, Crixás, Pilar e Niquelândia fossem preservados e não tivessem o fim que maior parte da história das cidades do norte goiano tiveram: se perdessem no lixo ou nas fogueiras na transição de governantes.

A região, que é marcada por disputas pela posse de terras que outrora estiveram ocupadas por etnias indígenas, ciganos e quilombolas, coleciona um passado cheio de dúvidas, graças a um histórico de convenientes “limpezas de arquivos oficiais”.  Um histórico que escondeu assassinatos de toda uma comunidade cigana da região e de uma das faces mais cruéis do estado de Goiás: um estado que por muito tempo abominou a diversidade cultural de seu povo.

O trabalho rendeu frutos. Foi presenteada muitas vezes por seus entrevistados. Suas fontes a quiseram-na como parente. Pintaram-na, cortaram seus cabelos um punhado de vezes para mostrar gratidão por sua atenção e respeito. Suas fontes também se lembram de como a neta de Sinva, Vitória, era pequena quando o trabalho começou, e se assustam em como a "menina está moça".

A história de Sinvaline também não poderia ser contada sem lembrarmos de sua atuação à frente do Memorial Serra da Mesa. Um dos principais museus do estado de Goiás e que garante ao norte do estado e seus personagens algo que o passado não permitiu: voz e memória.

Em 1999, Sinvaline publicou um poema que dava conta dos motivos pelos quais seus textos são tão esperados por nós, da organização do Encontro de Culturas, e pelo público: 

Súplica


“A inspiração me sai da alma,
Não importa que não a aceitem.
Não carrego nenhum diploma,
Frequentei a escola do mundo,
Em cada botequim tive um professor...
Vi a fome nos olhos do menino de rua,
Senti frio com o mendigo da praça...
Calejei as mãos no trabalho árduo,
Fiquei órfã, fui pai e mãe dos outros.
Se sofri, se chorei, não importa.
Vivi, muito mais vivi...
Daí me nasceram frases e frases,
Juntei-as ao meu modo singular
E nasceu o poema,
Me desabafei...
Depois de cada poesia
Tenho nova vida.
Não importa que não a valorizem
Ela grita o que está dentro de mim,
É uma suplica de amor...



Paraúna, 1999
Sinvaline Pinheiro


Era exatamente isso. A inspiração de Sinvaline sai da alma e comunica exatamente o que queremos:  Transformação.
Essa é a nossa Súplica.

 


 

A Vila de São Jorge




Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros é um projeto da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge.
A reprodução do conteúdo é permitida desde que citada a fonte e os créditos dos fotógrafos.